Ludwig Wittgenstein e a solução final para a filosofia
A temporada de isolamento de Wittgenstein na Noruega resultou em admiráveis progressos do pensador na área de
lógica. Mas esse período de absoluta solidão terminou quando viajou a Viena para visitar a mãe que estava doente. Ao chegar, descobriu que era herdeiro de uma fortuna, da qual decidiu abrir mão doando anonimamente a vários artistas. Um dos contemplados com a generosidade de Wittgenstein foi o poeta Rainer Maria Rilke.
Quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial, Wittgenstein alistou-se no exército austro-húngaro. E, assim como
Sócrates havia sido, ele também foi um soldado destemido. Foi diversas vezes condecorado com medalhas por conta de sua bravura. Um dia durante uma trégua na Galícia, ele comprou o livro “Breve explicação dos Evangelhos”, de Tolstoi. A leitura fez com que imediatamente Wittgenstein fosse iluminado pela religião e se tornasse um cristão convicto. A influência religiosa começou então a aparecer em sua obra filosófica. Ele afirmou que o significado da vida, o significado do mundo chama-se Deus. Para ele, rezar era refletir sobre esse significado. Em 1918, já com a patente de oficial, ele acabou prisioneiro enquanto lutava na Itália.
Durante a guerra, Wittgenstein escreveu o “Tractatus logico-philosophicus”, sua principal obra filosófica. Ela é considerada o primeiro grande texto filosófico e um dos mais estimulantes da era moderna. Nela, Wittgenstein tenta delinear sobre o que podemos falar de forma significativa. O “Tractatus logico-philosophicus” foi escrito como uma série de observações numeradas que começam com “1. O mundo é tudo que é o caso” e terminam com a conclusão memorável: “7. Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar”. Segundo o pensamento de Wittgenstein, quando analisada até suas proposições mínimas, a linguagem consiste em retratos da realidade. Os limites da linguagem são os limites do pensamento. As proposições e a realidade têm a mesma forma lógica. Assim, não podemos ir além da linguagem, já que fazê-lo seria ir além dos limites da possibilidade lógica.
Deus, por exemplo, se enquadra na categoria das coisas das quais não se pode falar. Como a linguagem só retrata a realidade, nada podemos dizer sobre Deus. Ele existe, mas não pode ser falado ou pensado. Deus é o inexprimível. Ele é o que se revela. O “Tractatus logico-philosophicus” mistura de forma poética lógica e misticismo. Wittgenstein finalizou a obra enquanto era mantido em um campo de prisioneiros pelos italianos. O livro marcou o fim da filosofia como até então era conhecida, pois simplesmente não era possível mais falarmos de maneira significativa sobre o que não seja tautológico ou verificável mediante observação.
Quando voltou a Áustria, Wittgenstein tentou ser um monge, mas acabou tornando-se professor numa aldeia distante. Isso após se livrar novamente de sua fortuna familiar, doada desta vez às suas irmãs (antes de morrer, o pai havia investido na América parte da fortuna que iria deixar de herança e os investimentos valorizaram-se enormemente). A experiência como professor foi um desastre para as crianças, para Wittgenstein e para a cidadezinha. Após deixar a aldeia e cuidar da construção de uma casa da irmã em Viena (suas irmãs estavam preocupadas com sua saúde mental), Wittgenstein acabou voltando para Cambridge em 1929. Graças a
Bertrand Russell, ele foi admitido como fellow do Trinity College. Lá ficaria dando aulas nos 18 anos seguintes. Foram aulas lendárias nas quais elaborou sua nova filosofia: a antifilosofia. Esses pensamentos seriam publicados postumamente em 1952 sob o título de “Investigações filosóficas”. Após finalizar os textos de sua antifilosofia, partiu para uma cabana no oeste da Irlanda para um novo período de solidão e ascetismo. Mas logo ficou doente e teve que viver sob os cuidados dos amigos, algum tempo na Inglaterra e outro na América. Em 29 de abril de 1951, Ludwig Wittgenstein morreu de câncer em Cambridge.