Da plantação ao consumidor

Autor: 
Fátima Souza

As drogas produzidas aqui no Brasil ou importadas de fora são compradas por grandes traficantes e revendidas aos chamados microtraficantes (aqueles que compram quantidades pequenas), que as revendem para os consumidores. Muitos destes grandes traficantes estão dentro das cadeias e as drogas que compram são revendidas dentro das prisões e também nas ruas. O homem que faz a ponte, ou seja, é o intermediário entre os produtores e os grandes traficantes é chamado de matuto. Nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, o tráfico montou uma espécie de governo paralelo.

Nas favelas e nos morros, eles são os “donos-do-morro” ou “donos-das-bocas” e ditam as leis. Os donos do morro é que decidem onde serão as bocas-de-fumo e quem serão os representantes, que são os microtraficantes. Estes finalmente vão revender a maconha ou a cocaína para o consumidor final, que podem ser jovens pobres da própria favela e morro ou, na maioria das vezes, os filhos da classe média e alta, principais financiadores do esquema do tráfico.

No Rio de Janeiro são quase mil favelas onde moram mais de 1,5 milhão de pessoas, parte delas recrutadas pelo tráfico. Os comandos criminosos cariocas empregam pelo menos 10 mil jovens de 10 a 16 anos que são os “soldados” ou vapores, fogueteiros, aviões. Sem oportunidade de emprego, sem perspectiva de uma vida melhor, os jovens vêem no tráfico uma possibilidade de “vencer” na vida. Espelham-se na fama dos chefões do tráfico, que circulam com carrões, sempre rodeados de mulheres bonitas e com seguranças armados. A eles, além de um “bom salário”, o tráfico oferece lazer e entretenimento, como os bailes funks onde a cocaína é livremente vendida a preço baixo, num território dominado pelos bandidos, onde muito raramente entra a polícia e o poder do estado é ausente. O “movimento”, como se referem os moradores ao tráfico de drogas, também aparece fazendo quadras de futebol e patrocinando festas juninas e natalinas, com distribuição de presentes para as crianças. Durante o ano, há ajuda às famílias até com a compra de remédios. Cerca de 50 grandes grupos controlam todo o tráfico no Rio.

Entre os trabalhadores do tráfico tem o “químico”, que é contratado pelo grande traficante, o “dono-do-morro”. O químico é o responsável por “batizar” a droga, ou seja, pelos ingredientes que vão ser misturados nela. A cocaína, por exemplo, é comprada “pura” pelos grandes traficantes e para que ela “renda” mais, aumente de volume, o químico faz a mistura que pode ser, por exemplo, com bicarbonato. Um quilo da droga pura vira dois quilos depois da mistura e o lucro é maior.

Há jovens que são contratados como “fogueteiros” que ficam em pontos estratégicos, munidos de fogos de artifício para serem soltados em duas ocasiões: quando as drogas chegam e ficam à disposição e quando a polícia está chegando.

No topo da hierarquia do tráfico está o “dono-da-boca”, traficante que compra as grandes quantidades. Abaixo dele os “gerentes”, que repassam a droga para os “aviões” que levam, transportam a droga até as bocas-de-fumo”. Os gerentes também têm a função de arrecadar semanalmente o dinheiro do tráfico nas bocas de fumo e prestar contas ao chefão, o dono-do-morro.

O dono-da-boca contrata os "soldados” ou “vapores” que são os que revendem a droga aos consumidores, aos clientes, que podem estar no morro ou nas avenidas, próximas às favelas e aos morros.

Há também os “esticas” que são os encarregados de vender as drogas em faculdades, boates, bares, prédios e condomínios. O trabalho é ininterrupto. São 2 turnos de 12 horas e os “trabalhadores” se revezam.

Em algumas favelas existe ainda o “drive-thru”. Os traficantes ficam em um ponto fixo e os compradores, de carro, passam, pagam e recebem a droga. Em São Paulo e no Rio também tem o serviço “delivery”. O cliente liga para um determinado número e em pouco tempo um motoqueiro chega com a “encomenda” que pode ser entregue em casa, num shopping, num bar. Os traficantes chegaram a sofisticação de “personalizar” as drogas, fazendo embalagens diferentes, em cores diferenciadas para cada boca-de-fumo. De forma que, se o cliente tiver alguma reclamação, o vendedor do ponto será identificado.

As drogas e a internet

Mundo moderno, traficantes modernos. E a internet entrou em ação. Com um “click” é possível negociar vários tipos de drogas: maconha, cocaína, esctasy. Jovens mantém conversas sobre novos entorpecentes, remédios que têm poderes alucinógenos. Marcam raves e abertamente publicam que nos três dias de festa vai rolar de tudo.

A internet é vista como uma nova possibilidade de negócios, principalmente pela possibilidade de vender drogas por e-mail ou em conversas on-line. Os traficantes chegam a fazer “leilões virtuais”, comercializando a droga para quem pagar mais.

 

Mulas

É
freqüente, nos aeroportos brasileiros, especialmente no Rio de
Janeiro e em São Paulo, a polícia prender pessoas que tentam embarcar para
a Europa  levando cocaína. Muitas são pessoas recrutadas
pelos traficantes, que ingerem cápsulas da droga (embrulhadas em
plástico para não estourar) e viajam com ela no estômago. Em um dos
casos, em 2006, um jovem preso estava com quase um quilo da droga no
estômago. As "mulas", como são chamadas, recebem pelo
trabalho cerca de US$ 5 mil por viagem mais as passagens aéreas e a
estadia. Quando chegam ao destino, tomam laxante para “despejar” a droga.
Alguns repetem o ritual de engolir drogas e voltam para o Brasil com o
estômago recheado de esctasy. Esses rapazes e moças ficam dois ou três
dias sem comer nada para que caiba mais droga dentro deles e para que
após a ingestão elas não se misturem com alimentos no estômago. Nem água
podem beber. Há casos em que as cápsulas de cocaína
estouram e as mulas morrem de overdose em poucos minutos.

 

Mortes e crimes

Em seu relatório, de 2006, a ONU destaca que grande parte dos 30 mil homicídios registrados anualmente no país estão ligados ao tráfico e consumo de drogas.

Ressalta que os grupos envolvidos no tráfico de drogas têm nível de violência maior do que os dos ligados a outras atividades criminosas, como o jogo do bicho. É como um ditado popular no Brasil: “O tráfico não perdoa, mata”. Mata porque vendeu e não recebeu, mata porque alguém “quebrou” a lei do silêncio, mata porque algum dono-de-boca foi incorreto na hora do acerto de contas.

O Ministério da Justiça do Brasil fez um levantamento que mostra que em 60% das chacinas ocorridas no país o motivo foi o tráfico de drogas. Em São Paulo e Rio de Janeiro chega a 80%. Sejam os matadores traficantes que venderam e não receberam, sejam traficantes rivais eliminando-se entre si, sejam policiais ou justiceiros os causadores das mortes, as drogas sempre são o pano de fundo.

Nosso país está também incluído no Relatório da Jife (Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes) como um dos países com os maiores índices de violência decorrentes do tráfico e do consumo de drogas.

As drogas aumentam também outros tipos de crimes como assaltos, arrombamentos, prostituição, porque muitas vezes o viciado sem recursos para comprar as drogas acaba cometendo esses crimes para obter o dinheiro.