As rotas do tráfico no Brasil

Autor: 
Fátima Souza

Existem diferentes rotas que trazem a cocaína e a maconha
para o Brasil. Há as rotas caseiras,  destinadas ao transporte da droga consumida pelos brasileiros, as rotas internacionais,
nas quais a droga simplesmente passa pelo país que é usado como
corredor das drogas que têm como destino final os Estados Unidos e a
Europa, e as rotas mistas, que são aquelas em que as drogas vêm para o Brasil e parte
fica no país para consumo e outra parte segue para o exterior.

A
maior parte da cocaína vem da Colômbia, e boa parte da maconha vem do Paraguai. Apesar do Brasil produzir maconha, principalmente no “Polígono da Maconha”, área do
semi-árido nordestino, a quantidade
não é suficiente para a demanda interna e, por isso, os traficantes
importam a erva do Paraguai.

A principal dificuldade que o
Brasil tem para evitar o contrabando e a entrada de drogas e
armas no país é o tamanho de suas fronteiras. São 16 mil quilômetros só por terra. Para combater o tráfico feito por via aérea, em 2004 foi regulamentada a lei 7.565,
conhecida como a “Lei do Abate”, que permite que aeronaves consideradas
suspeitas (que não tenham plano de vôo aprovado) sejam derrubadas em
território nacional. Com medo, os contrabandistas de armas e drogas que
usavam o espaço aéreo para transportar suas mercadorias, voltaram a
usar as rotas terrestres. Segundo a Polícia Federal, grande parte das
armas e drogas também chega pelo mar.

O tráfico de armas é um negócio
que também movimenta milhões de dólares, só perdendo para o de drogas.
Calcula-se que das 17 milhões de armas que existem no país, 4 milhões
estejam nas mãos do crime organizado
. Tanto as drogas como as armas
chegam ao Brasil por meio dos formiguinhas, pessoas que as
transportam em veículos particulares, ou pelos grandes traficantes
que fazem encomendas de quantidades que chegam via terra, mar e,
muito pouco atualmente, por ar. Nessa negociata, muitas vezes, os
bandidos pagam suas contas com trocas de produtos. É o caso da rota
Brasil-Suriname: os brasileiros vão até o país onde
compram armas e pagam com drogas. É pelo Suriname que entra boa parte
das armas produzidas na Europa, como o fuzil russo AK-47 e
metralhadoras antiaéreas trazidas da Ásia. Armas que interessam aos
traficantes brasileiros e a facções criminosas, como o PCC e o CV, para
continuar com o controle dos pontos de drogas e a continuidade dos
crimes.

Mandar
a droga para fora tem um motivo muito especial para os traficantes: o
preço. Pra se ter uma idéia, o quilo da cocaína na Colômbia custa US$ 2
mil,
chega ao Brasil por US$ 4,5 mil, nos
Estados Unidos custa US$ 25 mil e na Europa vale US$ 40 mil. No Oriente Médio e no Japão atinge seu maior valor: US$ 80
mil
o quilo.

O Brasil também recebe drogas de outros
países, numa rota inversa. O haxixe (a maior parte
produzido no Norte da África), por exemplo, é distribuído para a Europa e também para
o Brasil. O ecstasy, fabricado principalmente na Europa, é igualmente
trazido para o Brasil. Muitas vezes esse tráfico é feito por "mulas"
que levam cocaína para a Europa e trazem o ecstasy, uma das anfetaminas mais usadas no país, em troca.

São muitas
as portas de entrada das drogas no Brasil. Em novembro de 2007, a
polícia apreendeu na cidade de Umuarama (PR) 500 quilos de maconha, 
que vinham do Paraguai. A droga, segundo a polícia, entrava no Brasil por
Guaíra e pertencia ao PCC, que tinha montado uma base em Umuarama. De lá
mandavam a maconha para São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná, ao preço de
R$ 1 mil o quilo.Só nesse “posto” descoberto pela polícia era
comercializada uma tonelada de maconha por semana.

O
Brasil se difere do Paraguai, Peru, Bolívia e Colômbia por não ser
produtor e por ser o ponto mais importante de trânsito para as drogas
produzidas nos quatro países. Mas há tempos o Brasil não é mais só
corredor em direção a Europa e Estados Unidos. O país passou a ser um
importante consumidor de drogas, em especial, de maconha e cocaína. Um mercado ativo e em expansão que conquistou especialmente os
jovens.

Um documento divulgado pela ONU (Organização das Nações Unidas) em 2006 cita que no
Brasil o narcotráfico “emprega” mais de 20 mil “entregadores” de
drogas
, a grande maioria jovens de 10 a 16 anos que ganham salários de
US$ 300 a US$ 500 por mês. Só no Rio de Janeiro, o narcotráfico vende
por ano cerca de seis toneladas de drogas, faturando cerca de R$ 900
milhões, de acordo com a Polícia Civil carioca. Desse montante, quase R$ 600 milhões são faturados pelo Comando Vermelho e o Terceiro
Comando (outra facção do Rio). Em São Paulo, calcula a polícia, existem
cinco mil postos de distribuição da droga. A cidade é hoje o ponto principal do “corredor Brasil”, de onde é mandada a
maior parte da cocaína e maconha que abastece a Europa e Estados Unidos.

O
relatório da ONU acrescenta que os traficantes possuem armas melhores e
mais poderosas de que as da polícia brasileira e que os traficantes, mesmo
presos, continuam a comandar o tráfico de dentro da cadeia. Exemplo disso é o caso do traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira Mar,
um dos principais fornecedores de cocaína para o Comando Vermelho e
para o Primeiro Comando da Capital. Em 22 de Novembro de 2007 ,a mulher
de Fernandinho foi presa pela Polícia Federal no Rio de Janeiro,
acusada de ajudar o marido a comandar uma rede internacional de tráfico
de drogas e armas. Beira-Mar, mesmo preso no Presídio de Segurança Máxima em
Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, comandava suas operações criminosas
e tinha “representantes” em vários estados brasileiros. Sob sua chefia, sua organização comprava
maconha do Paraguai e cocaína da Bolívia e revendia para o mercado
interno e também para o Exterior. O ex-chefe da Polícia do Rio de
Janeiro, Hélio Luz, disse que “o tráfico é uma empresa, é uma empresa
ilegal”.

O Polígono da maconha

Na
divisa de Pernambuco (sertão pernambucano) e Bahia, às margens do Rio
São Francisco, 14 municípios no Nordeste do Brasil têm como
principal atividade o cultivo da maconha. É a maior área de plantio
da erva na América do Sul. Jovens e trabalhadores rurais são cooptados
pelo tráfico e trabalham de dez a 12 horas diárias de cinco a seis meses por
ano
. O Ministério Público do Trabalho de Pernambuco calcula que sejam
40 mil trabalhadores nessa região só no plantio de maconha, sendo dez mil crianças e adolescentes. O cultivo
da maconha na área começou em 1977. A estimativa era de que a produção em 2007 atingiu 10 milhões de pés da erva,
o que corresponde a quatro mil toneladas de droga. Do “produtor” o quilo saía por R$ 200
e depois de passar pelos “intermediários” chegava aos grandes traficantes
por mil reais o quilo. Pra se ter uma idéia, o produtor de cebola vende
o quilo por R$ 0,20.

As principais rotas

Veja abaixo as principais rotas brasileiras.

Rotas do tráfico no Brasil