Spinoza: do panteísmo à Ética

Em sua obra filosófica, Spinoza começa encarando o mundo de uma perspectiva extremamente racional e abstrata. Ele parte de uma série de definições, sendo duas delas fundamentais ao seu sistema: Deus e a Eternidade. A partir daí constrói, por meio de demonstrações da geometria euclidiana, um sistema necessário, determinístico e irrefutável que compreende o universo inteiro. O universo que ele descreve é panteístico – isto é, o universo é Deus e Deus é o universo.  Essa é a única substância do universo, mas ela tem inúmeros atributos, no entanto, só conseguimos perceber dois deles: a extensão (matéria) e o pensamento. Assim, na ideia de Spinoza, mente e corpo são aspectos diferentes da mesma coisa.

Spinoza postulou que a ideia de Deus é a maior que se pode conceber. Segundo ele, se ela não incluir o atributo da própria existência, então deveria haver uma ideia ainda maior e essa sim obrigatoriamente deveria incluir tal atributo. Assim, a maior de todas as ideias possíveis deve existir, do contrário uma ainda maior seria possível. Por essa razão, Deus, que é a maior das ideias possíveis, existe. Por mais estranho que pareça, essa interpretação é bem afinada com o pensamento contemporâneo. Quando Stephen Hawking, um dos mais importantes cientistas dos séculos 20 e 21, pergunta se a teoria unificada ou Teoria de Tudo seria tão forte que implicaria na sua própria existência, ele está filosofando de forma muito semelhante a que Spinoza fez três séculos antes. Afinal, tal argumento leva a uma inevitável conclusão metafísica de que o universo deve ser como é e teve que ser criado porque nenhum outro universo (ou ausência de um universo) era possível.

Entre as várias obras filosóficas produzidas por Spinoza, a mais importante foi a “Ética”. Mas, ele parece ter percebido que suas ideias que negavam a transcendência divina não seriam bem recebidas naquele universo religioso da Europa do século 17 e não permitiu a publicação do livro enquanto esteve vivo. Apenas distribuía alguns exemplares de forma clandestina a amigos.

Spinoza desenvolveu também seus pensamentos em relação à política. Vivendo desde 1663 num quarto de pensão, no subúrbio de Haia, ele se dedicava à lapidação de lentes, a ler e a escrever. Nesse período produziu uma obra estranha: “Tratado teológico-político”. Nela, misturava teoria política e comentários bíblicos. O mais incrível é que sua visão política é uma das mais modernas até hoje. Ele acreditava que o Estado só deve existir para proteger o indivíduo, que deve ser livre para perseguir seus próprios objetivos. Spinoza pensa também que o Estado deve limitar os próprios poderes, atuando de modo racional, o que implica a garantia de total liberdade de pensamento e opinião. Devemos ter liberdade de pensarmos o que quisermos, mas nossas ações devem ser limitadas pelo Estado (inclusive as manifestações públicas de pensamento que possam colocar fogo em multidões). Um pensamento político muito além do seu tempo.

Suas obras circulavam entre estudantes e intelectuais, mas ele continuou a fabricar lentes e a viver na pobreza. Quando adoeceu, em defesa de sua independência intelectual recusou várias ajudas financeiras. Em 21 de fevereiro de 1677, Spinoza morreu de uma devastadora tuberculose. Naquele mesmo ano, “Ética”, sua obra-prima, foi finalmente publicada.