Sócrates, um filósofo mordaz

Sócrates realmente deve ter acreditado que o Oráculo de Delfos falava com a voz dos deuses. Apesar de sua excepcional contribuição para o avanço da filosofia fundada na razão, ele não deixava de ser uma criatura de seu tempo. Como todos acreditavam num deus de algum tipo, ele também o fazia.

Parte da vida de Sócrates coincidiu com a posição de Atenas como a mais poderosa e civilizada cidade-estado da Grécia. Era a época de Péricles, um tempo em que os avanços atenienses, como o florescimento da democracia e a consolidação do pensamento científico e matemático, influenciaram todo o desenvolvimento humano. Mas esse período chegou ao fim com a Guerra do Peloponeso em 431 a.C. O império naval de uma Atenas quase democrática se opôs à militarista e preconceituosa Esparta. A guerra durou mais de 25 anos e teve consequências desastrosas. Sócrates serviu como soldado de terceira classe, com escudo e espada. O homem mais feio e mais sábio de Atenas mostrou-se um soldado cheio de bravura. Numa ocasião, ele resgatou o amigo Alcibíades que estava ferido, carregando-o entre as tropas inimigas e salvando sua vida. Segundo Platão, o bem apessoado Alcibíades teria se apaixonado por Sócrates e feito de tudo para seduzi-lo. Mas, não obteve sucesso.

Sócrates não tinha uma vida fácil. Sua recusa em trabalhar para manter sua dedicação à filosofia fazia com que ele não ganhasse dinheiro. Lecionava para jovens através de conversas informais numa loja na Ágora. Ele usava de sua espirituosidade para cativar a audiência e transformava em piada qualquer provocação maldosa. Naquela época, a sociedade grega produziu uma classe média intelectual com certa independência, por conta da democracia, e com uma relativa ociosidade, em função da escravidão, o que lhe permitiu ter muito tempo livre para pensar.

Quando tinha 50 anos, Sócrates casou-se com Xantipa, que dizem ter sido a única pessoa capaz de superá-lo numa argumentação. Eles tiveram três filhos e um casamento de muita união. Mas aos 65 anos, com o fim da Guerra do Peloponeso e a vitória de Esparta, o então maior filósofo grego se viu em maus lençóis. Um antigo aluno seu, Crítias, foi colocado pelos espartanos como um dos tiranos que governaria Atenas. Sabendo da influência da filosofia de Sócrates, ele proibiu o seu ensino nas ruas da cidade. Mesmo após a queda dos tiranos e a retomada do poder pelos democratas, a situação dele não melhorou.

Em 399 a.C. ele foi preso sob falsas acusações de heresia e corrupção de jovens. Condenado pelos cidadãos atenienses por 280 votos contra 220, ele foi setenciado à morte. Antes de ingerir o veneno que o mataria ele disse aos amigos que se reuniam em sua cela: “Chegou a hora de seguirmos caminhos diferentes: eu, o da morte; vocês, o da vida. Qual deles é o melhor somente Deus sabe”.