Como funcionam as sociedades secretas

Autor: 
Sílvio Anaz
sociedades secretas

As sociedades secretas nasceram praticamente junto com a civilização. Há sete milênios, o misticismo e a tendência humana pela intriga fomentaram nas sociedades da Babilônia, do antigo Egito, da Pérsia e da Síria os primeiros grupos de homens interessados em conhecer os mistérios esotéricos e utilizá-los com propósitos políticos. Esse esoterismo podia significar a busca da luz ou da escuridão, do céu ou do inferno, da bondade ou da maldade, da descoberta de conhecimentos para se alcançar as verdades divinas ou para manipular forças espirituais no plano físico. Nessa dubiedade de propósitos reside uma das principais razões das sociedades secretas.

sociedades secretas
© istockphoto.com / Duncan Walker

Apesar da aura negativa que circunda muitas delas, as sociedades secretas não são apenas grupos de pessoas que se escondem para praticar o mal. Muito pelo contrário. Boa parte delas surgiu e cresceu com os propósitos mais elevados que residem na alma humana, em busca de um conhecimento que revelasse as verdades eternas e iluminasse os caminhos do homem. Mas princípios que nasceram puros e sagrados muitas vezes sofreram distorções ao serem colocados em prática e resultaram em ações não muito bem vistas, muitas delas inspiradas na ideia de que os fins justificam os meios.

A partir das histórias das diferentes sociedades secretas que já surgiram ao longo dos milênios, podemos definir basicamente que uma sociedade secreta é composta por “iniciados”, isto é, por aqueles que tiveram acesso a determinados “mistérios”. Esses “homens sábios” acreditam que os segredos revelados a eles, ou por eles descobertos, não devem ser compartilhados com um mundo composto de pessoas vulgares e profanas, incapazes de compreender esses “mistérios”.

Maçonaria
Foto cortesia de Jahrundert
Gravura com ritual de iniciação na maçonaria no século 18

Embora baseada em aspirações das mais elevadas, essa forma de encarar o mundo tem levado certas sociedades secretas a desenvolverem práticas de tirania, arrogância e intolerância, em diferentes graus, com perigosas consequências sociais. Este é o caso da Ku Klux Klan nos Estados Unidos, por exemplo. Por outro lado, algumas têm funcionado como núcleos de movimentos sociais que em alguns momentos envolveram-se em processos de transformação do mundo, como no caso da maçonaria. E, por fim, muitas continuam a alimentar a nossa imaginação sobre o seu poder e conhecimento, mesmo quando sua existência ainda é colocada em dúvida (o que pode, na verdade, ser uma prova de sua eficiência em manter-se secreta), como nos casos do Priorado de Sião e do Illuminati, ambas popularizadas nos best-sellers “O Código Da Vinci” e “Anjos e Demônios”, de Dan Brown.

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© istockphoto.com / Duncan Walker
As sociedades secretas desde o princípio misturaram misticismo e intrigas

A principal fonte da tradição das sociedades secretas é a religião. Das crenças do antigo Egito ao cristianismo, os mistérios religiosos alimentaram o surgimento de diversas sociedades secretas, como a Cabala, ligada aos ensinamentos de Moisés, ou os Cavaleiros Templários, ordem militar-religiosa formada no século 12 sob benção da Igreja Católica e que inspiraria tempos depois uma nova sociedade secreta ligada à maçonaria. Nas próximas páginas, conheça quais são algumas das principais sociedades secretas, que ironicamente tornaram-se as mais populares do planeta.

Sociedades secretas tupiniquins

Em 1831, surgiu em São Paulo a Bucha, uma “confraria de camaradas” criada pelo professor alemão Júlio Frank, da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. O principal objetivo dela era ajudar os estudantes pobres que frequentavam o curso de Direito e promover encontros e debates literários. Frank trouxe a tradição das sociedades secretas da Alemanha e todas as ações da Bucha deveriam ocorrer sob o mais rigoroso sigilo. Só ingressavam na Bucha alunos escolhidos pelos seus integrantes, de acordo com os méritos morais e intelectuais que demonstravam. Ao longo dos anos a Bucha tornou-se uma das mais poderosas sociedades secretas no país, à medida que seus membros alcançavam os principais postos governamentais, tanto no Império como na República. Entre eles, estavam Rui Barbosa, Barão do Rio Branco, Afonso Pena, Prudente de Morais, Campos Sales, Rodrigues Alves, Washington Luiz, Júlio Mesquita Filho, Cândido Mota, Arthur Bernardes, Álvares de Azevedo e Castro Alves. Além da Bucha, rumores sugeriam a existência de outras fraternidades em faculdades tradicionais que surgiram com a aura de sociedades secretas, como a Landsmannschaft, na Escola Politécnica da USP, e a Jugendschaft, na Escola Paulista de Medicina.