Sartre: fenomenologia e existencialismo

O indivíduo existente é a única base para uma filosofia significativa. O pensador dinamarquês Soren Kierkegaard acreditava no século 19 que o ser humano era mais do que pensamento. As emoções também são parte da experiência humana e, portanto, a verdadeira filosofia deveria ser uma “filosofia da existência” ou o “existencialismo”. Quase um século depois de Kierkgaard ter “inventado” o existencialismo, Sartre decidiu debruçar-se sobre ele, o que o tornaria o mais popular porta-voz dessa linha de pensamento.

Após Kierkgaard quem desenvolveu o existencialismo foi o filósofo alemão Edmund Husserl. Mas ao contrário do seu antecessor, Husserl conservou uma certa crença na filosofia tradicional e direcionou seus estudos para os fenômenos básicos da experiência humana, atividade que ele chamou de fenomenologia. Husserl, na verdade, tentou transformar a filosofia numa ciência exata. Quando voltou a França, Sartre começou a redigir suas investigações fenomenológicas. Simone de Beauvoir o convenceu a fazer a partir de suas anotações filosóficas um romance. O resultado foi a obra “A Náusea”, um romance filosófico sem ser abstrato ou didático, publicado em 1938.

Logo após a publicação de “A Náusea”, Sartre lançou também um livro de contos, “O Muro” e, no ano seguinte, chegou sua aplicação dos métodos fenomenológicos na obra “Esboço de uma teoria das emoções”. As obras receberam aclamação e elevaram o crédito intelectual de Sartre, que àquela altura já estava prestes a se tornar mundialmente famoso. Enquanto eclodia a Segunda Guerra Mundial, Sartre estudava Heidegger, avançava no seu próximo romance, pensava em elaborar um tratado filosófico e suas idéias existencialistas evoluíam rapidamente.

Foi durante a ocupação da França pelas tropas nazistas que Sartre começou a escrever uma de suas mais conhecidas obras: “O Ser e o Nada”. Todos os pensamentos filosóficos desenvolvidos por Sartre articulam-se a partir da liberdade de escolha do indivíduo. Na obra, um dos conceitos-chave apresentados pelo filósofo é o mauvaise (auto-engodo) que significa que agimos de má fé quando enganamos a nós mesmos, particularmente quando tentamos racionalizar a existência humana impondo-lhe um significado ou coerência. Outro conceito fundamental apresentado por ele é de que a existência precede a essência. Para ele, um ser humano nada mais é do que aquilo que faz de si mesmo. No livro, a explicação de Sartre sobre o comportamento humano passa por interpretações psicológicas, uma certa psicanálise existencial que ele usa para interpretar várias ações humanas. “O Ser e o Nada” foi publicado em 1943 na Paris ocupada pelos nazistas.

Após o final da Segunda Guerra, Sartre lança “O existencialismo é um humanismo”, onde em trinta páginas faz a sua mais clara exposição do existencialismo. Em 1952, declarou-se marxista, mas apesar de ter se tornado um filósofo da revolução, recusou-se a ingressar em qualquer partido político. Em 1960, publica “Crítica da Razão Dialética”, sua última importante obra com pretensões filosóficas. Os revolucionários anos 60 foram o auge de sua popularidade e reconhecimento. Em 1964, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, graças ao livro “As Palavras”, uma autobiografia da sua infância, mas o rejeitou. Para manter sua produção intelectual e suas ações políticas recorria cada vez mais à ajuda química de remédios e bebidas. Em 15 de abril de 1980, quando já não estava mais na “moda”, Jean-Paul Sartre morreu aos 74 anos em Paris. O cortejo fúnebre pelo Quartier Latin (o bairro boêmio e intelectual parisiense onde ele passou boa parte de sua vida) foi acompanhado por 25 mil pessoas.