Como surgiu e cresceu São Paulo

Autor: 
Luís Indriunas

No dia 25 de janeiro de 1554, um grupo de jesuítas -- entre eles José de Anchieta -- inauguraram, com uma missa, o Colégio São Paulo, uma casa de taipas que tinha como objetivo catequizar os índios da região. O nome surgiu porque nesta data se comemora a conversão do apóstolo Paulo ao cristianismo. O local escolhido para o colégio foi o planalto de Piratininga, uma alta colina margeada por dois vales onde corriam os rios Tamanduateí e Anhangabaú, local mais seguro que a Vila de Santo André da Borda do Campo (atual cidade de Santo André), fundada um ano antes bem próximo à Serra do Mar e constantemente ameaçada pelos índios mais aguerridos.

Fundação da cidade de São Paulo
Imagem cedida pelo Museu Paulista
Pintura de Oscar Pereira da Silva que retrata a fundação de São Paulo

Pátio do Colégio
Fernando Fernandes/Lunapress
O Pátio do Colégio nos dias atuais

O colégio São Paulo começou a educar em português e converter vários índios, chegando a ter 130 alunos por dia. O solo mais fértil que do litoral também atraiu colonos portugueses. Aos poucos, a vila de São Paulo começou também a ser o local de moradia, ou pelo menos de repouso, dos bandeirantes, aventureiros que seguiam pelo interior do Brasil atrás de ouro e escravizando índios no meio do caminho.

Em 1711, quase duzentos anos depois, a vila transformou-se em cidade. Mas a ascensão de Minas Gerais com o ciclo do ouro acabou diminuindo a oportunidade de crescimento. Cidade ou vila, São Paulo passou séculos sendo uma área pobre, com outras vilas pobres ao lado, que depois se transformariam em bairros da cidade como a Freguesia do Ó ou Pinheiros.

Com a independência do Brasil, São Paulo passou a ser a capital da província, ganhando uma Academia de Direito que virou depois a Faculdade de Direito do Largo São Francisco da Universidade de São Paulo (USP). Foi o primeiro indício do futuro da cidade (o maior centro cultural do país), já que a academia começou a receber estudantes de outras partes do país.

Foi, entretanto, com o início do ciclo do café, final do século 19, que São Paulo começou a despontar para se transformar, um século depois, na maior e mais influente cidade da América do Sul. Foi o primeiro grande boom da cidade. Com fim da escravidão, a cidade foi recebendo seus primeiros imigrantes, principalmente europeus, para trabalhar nas lavouras de café. Em 1895, a cidade tinha 130 mil habitantes. Cinco anos depois, já eram cerca de 240 mil.

São dessa época os primeiros planos de urbanização da cidade com aterramento de ruas e construção de infra-estrutura. Veja algumas das obras inauguradas nesse período:

  • Estrada de ferro Santos – Jundiaí – 1867
  • Avenida Paulista – 1891
  • Viaduto do Chá – 1892
  • Estação da Luz – 1901
  • Teatro Municipal – 1911

Nas primeiras décadas do século 20, a cidade começa a receber várias levas de imigrantes, boa parte vinda das fazendas de café, outra parte diretamente dos navios do Porto de Santos. Se já existiam vários portugueses, começaram a aparecer mais deles, além de alemães, russos, japoneses, espanhóis, árabes, libaneses e, principalmente, italianos. Aliás, vem do modo de falar dos italianos o sotaque típico do paulistano. E muitas palavras italianas tornaram-se brasileiras como o “ciao” que aqui se transformou em tchau. A influência dos descendentes do império romano é enorme. Amantes das óperas, eles ajudaram a encher os primeiros teatros paulistanos. Um italiano, o produtor Franco Zampari, foi o fundador do importante Teatro Brasileiro de Comédia. A arquitetura paulistana também foi influenciada pelos italianos. Mestres de obras de várias regiões daquele país trouxeram técnicas de construção diferentes dos portugueses, utilizando tijolos de barro cozidos, além de influenciar no design. E a influência continuou pelas outras décadas também.

Política e economicamente, a mão italiana foi forte. Rodolfo Crespi e Francisco Matarazzo foram alguns dos principais industriais do país. Sendo o último proprietário das Indústrias Reunidas Matarazzo, que chegou a ter 350 empresas, a maioria em São Paulo. Assim como os patrões, os empregados italianos foram importantes para a formação social e econômica do Brasil. Com uma tradição anarquista, os italianos que chegavam criaram uma consciência proletária nunca vista antes no país, resultando em greves que foram fortemente reprimidas no início do século. As discussões e ações desses italianos também ajudaram na fundação do Partido Comunista Brasileiro, atual Partido Popular Socialista (PPS).

Além dos italianos, essa diversidade de imigrantes transformou a cara de São Paulo. Os japoneses foram para a Liberdade e depois Saúde. Os judeus para o Bom Retiro e depois Higienópolis. Os alemães para Santo Amaro. Os árabes e libaneses para o Centro e Zona Norte. Hoje, a diversidade culinária e cultural da capital paulista obviamente tem a ver com essa imigração.

Com tanta coisa acontecendo em pouco tempo, a cidade se transformou em palco e representante da modernidade brasileira. É no Teatro Municipal de São Paulo, que artistas como Mário de Andrade, Anita Malfatti, Oswald de Andrade e Villa Lobos chocaram a sociedade paulista e brasileira com o princípio da antropofagia cultural, na Semana de Arte Moderna de 1922. Esse movimento foi o alicerce para muito do que foi feito culturalmente em São Paulo e no país nos anos seguintes. A modernidade também amplia-se na arquitetura. É de 1929, a fundação do edifício Martinelli (mais um nome italiano) com os então excepcionais 30 andares.

A influência política de São Paulo no início da República é inquestionável. Forte economicamente, o Estado e, conseqüentemente, a cidade influenciavam decididamente as questões nacionais, marcando o primeiro período da República com a política do café com leite, num explícito revezamento do poder entre políticos paulistas (o café) e mineiros (o leite). Essa influência começa a cair com a revolução de 30 e ascensão de Getúlio Vargas, mas não sem a contestação dos paulistas com a revolução constitucionalista de 1932.

É da era getulista um novo impulso urbanístico da cidade com o prefeito Prestes Maia. O engenheiro criou o “Plano de Avenidas”, o primeiro planejamento de vias urbanas da cidade. Sendo ele mesmo responsável por várias obras como o alargamento da avenida Ipiranga e da Itororó (hoje 23 de maio) e Liberdade. Muito do que foi feito na cidade nos anos seguintes foi influenciado pelo pensamento de Prestes Maia, inclusive, as avenidas marginais dos rios Tietê e Pinheiros, que surgiram nos anos 60.

Avenida 23 de maio
Fernando Fernandes/Lunapress
A avenida 23 de maio foi ampliada por Prestes Maia e
hoje é uma das mais movimentadas da cidade.

Economicamente, os anos 30 e 40 deram mais um grande impulso na economia paulistana. Com a Segunda Guerra Mundial, as importações minguaram e São Paulo e seus arredores, que começavam a crescer formando a megalópole atual, acabaram sendo o local da criação de várias indústrias, inclusive as do setor automobilístico. Além disso, esta é a época da popularização do concreto. É a partir dos anos 40, que a verticalização da cidade começa a tomar força entre os imóveis residenciais em bairros como Higienópolis e Campos Elíseos.

A partir do final dos anos 50 e início dos 60, o já grande fluxo migratório de várias Estados do país se intensifica. Os nordestinos são a maior parcela de migrantes, acompanhados dos mineiros. A cena mais comum desse fluxo migratório eram os paus-de-arara, caminhões que levavam essas pessoas de maneira precária em longas viagens pelas estradas do país. Esse aumento populacional tem como reflexo um expansão ainda maior para a periferia e um agravamento da desigualdade social, refletindo-se geograficamente e economicamente. A periferia se expande e também se verticaliza, impulsionada pela criação do Sistema Financeiro Habitacional, o pai dos prédios da Companhia Metropolitana de Habitação (Cohab), pelo governo militar. A pobreza e a violência também crescem na periferia. Ao mesmo tempo, essa nova leva de imigrantes dá mais impulso à diversidade paulistana com os centros de cultura nordestina e vários expoentes da música brasileira que migraram para São Paulo.

Crescendo para os lados e acabando com as fronteiras físicas com as cidades vizinhas, São Paulo era, em 2007, uma megalópole com 10 milhões na cidade e mais 7 milhões na Grande São Paulo. Mas sua tendência de crescimento desenfreado pode estar com os dias contados como se verá na próxima página.