Enquanto filosofava, Rousseau também se dedicava às artes. Em 1752, ele compôs a ópera “O advinho da aldeia”, que encantou o rei Luis 15. Chamado a Versailles para conhecer o rei, que iria premiá-lo com uma pensão vitalícia, Rousseau foi fiel aos seu idealismo e recusou-se a comparecer, temendo que o encontro e o prêmio retirassem sua liberdade.
Um novo concurso da Academia de Dijon, levou Rousseau a escrever um novo ensaio que iria se constituir em sua primeira obra-prima filosófica: “Discurso sobre a origem da desigualdade”. A ideia que apresentou no primeiro ensaio é aqui desenvolvida com Rousseau delineando uma hipotética história social da humanidade e sua queda da graça natural. A origem disso está em duas desigualdades, segundo o filósofo. A desigualdade natural, decorrente das diferenças físicas e de inteligência entre os seres humanos. Já a segunda desigualdade é derivada da sociedade. E ela é moral e política. Para participar da sociedade, o ser humano abriu mão de seu estado “natural”. Surgiu, entre outros, o conceito de propriedade que foi “fatal” para a humanidade. Rousseau concluiu que a desigualdade social afastou os seres humanos de sua natureza e inocência originais.
Além do interesse público que o novo ensaio despertou, o sucesso de sua ópera em Paris projetava para ele uma brilhante carreira como compositor. Mas ele preferiu abandonar esse efeito “corruptor” da civilização e retornar para Genebra. Junto com sua amante foi surpreendentemente bem-recebido em sua cidade natal. Nesse meio tempo, Thérèse já tinha tido cinco filhos – não se sabe quantos ao certo eram de Rousseau – mas o filósofo entregava as crianças ao orfanato, imediatamente após o nascimento de cada uma. O egocentrismo e o egoísmo de Rousseau não permitia nenhuma criança em sua vida, além dele mesmo.
Ele não permaneceu muito tempo em Genebra e após uma viagem para visitar Paris acabou indo morar na casa de campo de madame d’Épinay. Lá escreveu o romance “Júlia” que trazia vários dos elementos literários que caracterizariam o Romantismo. Nos quatro anos que passou morando na residência de d’Épinay, escreveu também sua outra obra-prima filosófica: “Contrato Social”. Nessa obra, Rousseau abandona o conceito de liberdade presente nas obras anteriores para dizer que é a sociedade quem liberta os seres humanos de suas paixões naturais escravizantes e dá a eles uma igualdade moral. Publicado em 1762, o “Contrato Social” gerou reações e muita polêmica.
Enquanto isso, o romance “Júlia” fez um enorme sucesso. Rousseau decidiu então escrever uma nova obra de ficção. O tema central é o filho de um homem rico sendo educado por seu mestre. “Emílio, ou sobre a educação” mudou a forma da humanidade compreender as crianças e a educação. Na obra, ele demonstra uma incrível percepção psicológica do comportamento infantil. Vários assuntos são abordados por Rousseau no livro, entre eles, a religião que é atacada violentamente pelo filósofo. A publicação da obra em 1762 causou furor e Rousseau acabou sendo perseguido e banido de Paris e Berna. Após passar pela Inglaterra, voltou secretamente para a França, mas quando isso acontece já estava enlouquecido pela paranóia. Em 2 de julho de 1778, após olhar para o céu azul e dizer que “o portal está aberto, e Deus espera por mim” ele morre nos braços de Thérèse com quem havia se casado dez anos antes.
O homem nasceu livre, e em toda parte está acorrentado. Muitos pensam que são os senhores de outros, enquanto, na realidade, são mais escravos ainda que os outros. Como aconteceu essa mudança? Não sei. O que a legitima? Creio que tenho a resposta para essa questão. Se eu considerasse apenas o uso da força e seus resultados, diria que, enquanto as pessoas são forçadas a obedecer, e obedecem, funciona bastante bem. Mas tão logo essas pessoas são capazes de sacudir seu jugo, e fazem-no através da força, agem melhor ainda. Pois, se as pessoas recuperam sua liberdade da mesma forma como essa lhes foi tirada, ou têm o direito de retomá-la, ou então não havia justificativa para ela lhes ter sido arrebatada. Contrato social |