Das falsas festas da França do século 16 até a era da Internet, o dia da mentira foi ganhando cada vez mais adeptos e se sofisticando. Além das brincadeiras que remetem ao dia-a-dia das pessoas, a mídia foi aderindo à brincadeira. Uma das mais antigas histórias foi pregada pelo jornal The Boston Post. Há mais de um século e meio, num 1º de abril, o jornal publicou que trabalhadores, quando tentavam extrair a raiz de uma árvore caída, acharam um tesouro perdido de piratas e, assim, qualquer pessoa, com uma picareta na mão, conseguiria encontrar ouro e jóias no local. Mesmo sendo um dia chuvoso, ninguém se importou e muitos saíram correndo para o local. Até os nobres legisladores do local interromperam a sessão na assembléia e correram para lá. No dia seguinte, o jornal ria das pessoas com a manchete: April Fool.
A tradição de enganar o leitor no dia 1º de abril foi contagiando a mídia, principalmente, inglesa.
Em 1957, o então mais popular programa da televisão britânica BBC, o Panorama, divulgou uma matéria sobre as árvores de macarrão no Vale do Pó, Suíça. As imagens exibidas mostravam os camponeses colhendo o “fruto”. Para quem ligou para tevê a fim de saber como plantar as árvores, os produtores sugeriam que colocasse o macarrão em uma lata com molho de tomate.
O jornal britânico The Guardian é protagonista do mais bem elaborado trabalho de enganação. Em 1º de abril de 1977, o jornal saiu com um suplemento de sete páginas sobre a República de San Serriffe, um arquipélago localizado no oceano Índico. O caderno contava, em detalhes, os dez anos da independência do país, “motivo” para a publicação do caderno, além de tocar em aspectos como a história do seu descobrimento pelos portugueses, a colonização dos ingleses, a população nativa (os flongs), a economia baseada no petróleo e as belezas naturais e pontos turísticos como Garamondo, Villa Pica, Cap Em e Umbra. O mais absurdo é que eles afirmavam que a ilha se movimentava pelos oceanos. Teria surgido próximo ao Brasil no Atlântico e já havia chegado ao Índico.
![]() O mapa da mentirosa San Serriffe, publicada pelo The Guardian |
A edição sobre San Serriffe foi um sucesso. Os leitores ligavam para o jornal querendo mais informações. Agências de turismo e o aeroporto de Londres receberam ligações de pessoas querendo viajar para esse paraíso tropical. A diretoria do porto de Liverpool chegou a marcar uma reunião para falar sobre as oportunidades que essa ilha poderia trazer.
A idéia do caderno sobre San Serriffe surgiu dos próprios jornalistas do The Guardian. Na época, numa jogada publicitária, o jornal publicava cadernos sobre locais até então desconhecidos dos ingleses e enchia de anúncios de agências de viagens, máquinas fotográficas e empresas de vários ramos que eventualmente investiam no local. Foi, então, que eles decidiram inventar um local. E a piada virou uma ação lucrativa. Dezessete anunciantes cativos do jornal decidiram entrar na brincadeira. A Kodak anunciou a organização de uma exposição sobre o arquipélago. A Texaco anunciou um concurso que dava como prêmio viagens para a ilha.
O lendária San Serriffe foi um sucesso tão grande que até hoje, o The Guardian continua publicando, obviamente todo dia 1º de abril, uma nova história sobre a ilha. Em 2007, os jornalistas falavam sobre a expansão do ecoturismo na ilha, além de voltar a localizá-la por causa do sua eterna viagem pelos oceanos.
Depois da bem-sucedida experiência do The Guardian, os jornais britânicos entraram com tudo na onda do 1º de abril. Pena que eles não avisaram o resto do mundo. Algumas das sérias publicações brasileiras caíram no conto do dia da mentira. Em abril de 1993, a revista Veja publicou o surgimento do “boimate”, uma verdadeira revolução científica. Pesquisadores de Hamburgo, na Alemanha, conseguiram fundir pela primeira vez células de tomate com células de boi, criando essa nova espécie animal-vegetal - possivelmente muito saborosa. A notícia era uma pegadinha de 1º de abril da britânica New Scientist. Precisou uma outra publicação, o jornal O Estado de São Paulo, divulgar o engodo para que a Veja assumisse o erro. No mesmo mês, a Folha de S.Paulo publicava a descoberta por arqueólogos de evidências da existência da famosa vila gaulesa de Asterix e Obelix, inclusive com restos de menires que o obeso gaulês produzia. Era uma brincadeira do jornal The Independent. Enquanto a Folha assumia a notícia como verdade, a Gazeta Mercantil publicava uma matéria falando que o anúncio era uma grande piada e contando da tradição inglesa de pegadinhas no “April Fool”.
Obviamente, essas brincadeiras também chegaram à era do mundo virtual. A empresa Google, em 2007, anunciou um novo serviço. A partir daquele primeiro de abril, as pessoas poderiam pedir para o servidor Gmail a impressão de todos os seus e-mails - tanto recebidos quanto enviados. E a própria empresa se prontificava em imprimir e levar para o usuário. O portal mostrava vídeos das pessoas recebendo os caminhões cheios de e-mails impressos, depoimentos de usuários etc. Veja como foi, clicando aqui.
Sarkozy e pingüins voadores
Em 1º de abril de 2008, o alvo preferido da mídia inglesa foi o presidente da França, Nicolas Sarkozy. O tablóide The Sun anunciou que Sarkozy iria fazer uma cirurgia para esticar os ossos e ficar mais alto do que sua mulher, Carla Bruni. Aliás, a primeira-dama, segundo o The Guardian, foi convidada pelo premiê britânico, Gordon Brown, a dar aulas de moda e etiqueta para os ingleses.
Na linha do jornalismo científico, a rede de TV BBC mostrou pingüins voadores que saíram das Malvinas em direção à floresta amazônico, fugindo do frio. Pode?
Com todas essas histórias, é inevitável perguntar: o que será que a mídia vai aprontar no próximo 1º de abril?
Como normalmente apenas uma das matérias de 1º de abril de cada publicação é mentira, é possível percebê-las com algumas pistas. Se você é um leitor atento, deve ter percebido que os nomes usadas para a imaginária San Serriffe (que quer dizer sem serifa) são todos modelos de letras tipográficas como Garamondo, tipo comum em qualquer editor de texto. Além disso, é fácil perceber que os cientistas do “boimate” eram da Universidade de Hamburgo. Além do mais quem leu a notícia na época poderia ter percebido outro ironia, já que o nome de um deles era Barry McDonald. Por isso, no dia 1º de abril, a questão é ficar esperto para as pistas. |