Nos EUA, em quase todas as instituições financeiras com as quais as pessoas lidam normalmente, existe a idéia de uma "conta". Por exemplo: quando a pessoa coloca dinheiro num banco, fica subentendido que este é o "seu dinheiro" e ele vai para uma conta com o seu nome. O mesmo acontece quando ela contribui para seu plano 401(k) no trabalho - ela tem uma conta com dinheiro nela e se mudar de emprego, o dinheiro que está lá é dela. Também existem contas para cartão de crédito, financiamentos, compra de carros, etc. Em quaisquer destas contas, é possível depositar e retirar dinheiro, e quem quer que seja o titular, ele vai conseguir saber o quanto tem  depositado nela ou quanto falta.

O sistema de Previdência Social não é assim. Nele, o dinheiro que você deposita é imediatamente retornado às pessoas que estão atualmente recebendo pagamentos da Previdência Social. Nos EUA, esse processo acontece por causa da forma como o sistema foi iniciado. Em 1935, quando o presidente Roosevelt assinou o Ato da Previdência Social, transformando-o em lei, existiam muitas pessoas que precisavam de benefícios (em razão da Grande Depressão), porém não havia dinheiro para pagá-los. A idéia na época era de que as pessoas que estivessem trabalhando pagassem para o sistema, e o seu dinheiro retornaria imediatamente na forma de benefícios. Cada geração de aposentados seria paga pela geração de trabalhadores e assim o sistema se capitalizaria para sempre, apesar de não haver dinheiro para o início.

Esta grande idéia funcionou bem em 1935 (e durante muitos anos), porém apresentará problemas no futuro, por duas razões:

  • em 1935, havia muito mais pessoas que contribuiam para o sistema do que as que recebiam benefícios. A proporção entre trabalhadores e aposentados indicava que os trabalhadores não tinham de contribuir muito para financiar os aposentados (esta tabela mostra que até 1950, apenas 2% do rendimento (1% funcionário, 1% empregador) era retido na Previdência Social, comparado aos 15,30% (7,65% funcionário, 7,65% empregador atuais). No futuro, a aposentadoria de milhares de pessoas estourará a proporção, e haverá tantos aposentados que os trabalhadores não conseguirão financiá-los. Se a população tivesse crescido de forma constante isto não seria um problema, mas não existe saída para que o sistema da Previdência Social consiga lidar com picos de população como os "baby boomers" (geração nascida entre 1946 e 1964 nos EUA);
  • muitas pessoas se acostumaram tanto com a idéia de um plano 401(k) (onde o dinheiro lhe pertence e cresce com o tempo, através de um composto de investimentos), que a idéia do sistema da Previdência Social se tornou difícil de engolir. Atualmente, um trabalhador paga 7,65% de sua renda bruta para o sistema da Previdência Social (com uma renda bruta média de aproximadamente U$70 mil), e o empregador paga outros 7,65% pelo funcionário. Se ele pudesse tirar estes 15,30% da renda bruta e investir num plano 401(k) durante o mesmo tempo, poderia gerar uma imensa soma em dinheiro, com base em retornos históricos - bem mais do que uma pessoa com uma renda média (ou maior) conseguiria com a Previdência Social. O benefício de Previdência Social de um aposentado é calculado com o uso de uma fórmula complexa, ao invés de um saldo da conta, pois não existe, no sentido tradicional, uma "conta".
Você deve ter ouvido que o sistema da Previdência Social atualmente arrecada mais dinheiro do que paga, a fim de organizar o problema de picos de população. O que acontece com o dinheiro excedente que o sistema arrecada? O sistema da Previdência Social compra títulos do Tesouro dos Estados Unidos com o excedente. Essencialmente, o governo (na forma da Administração da Previdência Social) empresta o excedente para si próprio.

Em décadas futuras, quando for a hora de começar a usar o excedente arrecadado, o governo pagará a si próprio através de receitas fiscais (ou empréstimos adicionais). O sistema da Previdência Social começará a vender os títulos, e o governo terá de fazer bons negócios com eles nas receitas fiscais. Isto soa estranho porque é estranho - se funcionará ou não, é uma boa fonte de debates agora. O efeito que isto terá é o deslocamento do pagamento dos benefícios da Previdência Social para o governo como um todo. O governo como um todo, ao invés do sistema da Previdência Social, terá de pagar novamente os títulos do tesouro que o sistema da Previdência Social estará cobrando. Com certeza será interessante ver o que acontecerá.

Mais links interessantes (em inglês)