Os estilos

Autor: 
Heloisa Ribeiro


Como expressões artísticas próprias, os presépios sinalizam a cultura de cada país onde são montados. Com figuras humanas que podem variar de miniaturas de dez centímetros a 1,5 metros, são feitos em madeira, porcelana, palha, papel machê, entre outras técnicas, com traços próprio. No presépio japonês, por exemplo, João e Maria têm traços orientais e vestem roupas de seda. Na África do Sul são feitos em jacarandá. Na Ilha da Madeira, a figura de Maria aparece com sete saias, símbolo da nobreza portuguesa.


O estilo mais célebre e sofisticado de presépio é, porém, o napolitano do século 18, arte que atingiu seu auge nos adereços em miniatura (os chamados finimenti) e no elevado número de cenas da vida popular. O rei Carlos III, de origem espanhola, tornou-se o grande patrono dessa arte em Nápoles, incentivando famílias ricas a adquirir figuras de alta qualidade, enquanto artistas buscavam representações cada vez mais suntuosas. Produziam cabeças em terracota, olhos de vidro, braços e pernas em madeira, unidos a estruturas de arame revestidas que formavam o corpo de figuras maleáveis. Mais marcantes eram os trajes do casal sagrado, dos cidadãos napolitanos e dos Reis Magos e sua exótica comitiva, adornadas em seda, ouro, pedras preciosas, madrepérola, marfim, além de inúmeros instrumentos de música, de sopro e corda, trabalhados em madeira ou latão. Boa parte dessas obras era exposta em praça pública.

Também em Portugal foram produzidos alguns dos mais belos presépios do mundo, não só de valor folclórico, mas como obras de arte naturalista. Mesmo nas cenas mais realistas, dos pastores ajoelhados ou da família com os meninos a caminho do presépio, o talento da composição e o estilo das roupagens exprimem uma força que se não encontra nas grandes esculturas naturalistas da época. Os chamados barristas reproduziam com terra cenas da vida popular e, pela exuberância de seu trabalho, fizeram do século 17 em Portugal o século dos presépios, período áureo dessa produção tipicamente nacional.


Na Itália, encontra-se ainda a rua San Gregório Armeno (Nápoles), que possui importância singular na produção dessa arte na Europa, concentrando grande número de artesãos e escultores e conta com mais de 300 mil itens relacionados a presépios, figuras e acessórios, vendidos principalmente nas semanas que antecedem o Natal. Muitas figuras são pequenas obras e podem levar até uma semana para serem completadas.

O presépio brasileiro

A história do presépio brasileiro é fruto da influência dos colonizadores de Portugal, Espanha e França, principalmente. Segundo estudiosos, em 1532, o padre Jose de Anchieta, ajudado pelos índios, já modelava em barro pequenas figuras representando o presépio, com o propósito de incutir-lhes a tradição cristã e honrar o menino Jesus no dia de Natal. Mas foi entre os séculos 17 e 18 que os presépios foram definitivamente introduzidos e difundidos no Brasil, inicialmente se inspirando nos modelos europeus e, mais tarde, adquirindo fisionomia própria e a riqueza de linhas que marcaram o barroco nacional.

O índio, o negro, o caboclo, a fauna, a flora, a mitologia afro-americana, usos e costumes, transformaram as influências externas em cenas comuns da vida diária: lavadeiras no rio; caçadores, fazendeiros e trabalhadores cuidando de animais ou montados a cavalo; mulheres cuidando dos filhos ou tirando água no poço; moinhos, cisternas, fontes e rios escorrendo por baixo das pontes. Além da paisagem esboçada nos presépios conter montanhas, árvores, casas de todos os gêneros, pintadas com cores vivas, e a igrejinha iluminada.


A Bahia é um dos estados onde mais cresceu e se difundiu essa tradição, graças também ao seu precioso folclore. No livro "Gabriela, Cravo e Canela", Jorge Amado detalha casas que ficaram célebres pelos presépios de Natal trabalhados o ano inteiro e expostos em dezembro com vista para a rua, em Ilhéus. “Era o Natal dos presépios, das ceias após a missa do galo, do início dos folguedos populares, dos reisados, dos ternos de pastorinha, dos bumba-meu-boi, do vaqueiro e da caapora", reforça o autor.

Vários estados do Brasil possuem uma rica série de presépios, como o presépio da cidade de Piriripau, exposto no Parque do Ibirapuera no 4º Centenário de São Paulo, com 42 cenas que vão do nascimento atá a ressurreição de Cristo. No Vale do Paraíba, a arte presepista desenvolveu-se de tal maneira que os presépios em barro cru pintado desenvolvidos pelos “figureiros do Vale” são vendidos em outras regiões, com colorido diferenciado.

Em Minas Gerais, António Francisco Lisboa, o Aleijadinho, decorou não só as igrejas de sua terra natal, Ouro Preto, como fez presépios para a aristocracia crioula, esculpindo figuras não superiores a trinta centímetros com uma requintada elegância, como pastores rezando e os Reis Magos.

Museu do presépio – a idéia de um museu de presépios teve início em 1949 em São Paulo, quando Francisco Matarazzo Sobrinho trouxe da Itália um precioso exemplar do Presépio Napolitano, do século 18, composto por 1620 peças. Anos mais tarde, o sonho tomou forma no Museu de Arte Sacra da capital, onde se encontra o original e mais 130 presépios, que revelam a diversidade de exemplares no mundo, como o do México, com modelos de barro seco e cortiça, e o da Áustria, com madeira, coquinho e pinhas.