Eles também erram

São centenas de ações todos os anos destes grupos de elite em todo o Brasil. Na maioria dos casos, eles acertam e colaboram para que as ocorrências sejam encerrada com as vítimas em segurança. Mas quando erram, exatamente por ser uma polícia muito bem treinada – de quem se espera só os acertos – vem as cobranças. E os da elite viram manchete.

São Paulo, março de 1990: a morte da professora

Gilberto Palhares, assaltante, invadiu a casa da professora de ginástica Adriana Caringi. A polícia chegou. O bandido levou a moça de 23 anos para a janela do andar de cima do sobrado, quebrou o vidro e, com um revólver apontado para a cabeça dela, começou a gritar que a mataria se a polícia invadisse o local. O Gate – Grupo de Ações Táticas da Polícia Militar era a tropa de elite que estava no local e negociava com o marginal. Um dos integrantes da equipe, um atirador de elite do GATE, estava agachado junto a um poste, armado com um fuzil belga e decidiu atirar. O tiro acertou o bandido mas também a refém, atravessando a cabeça dos dois. Adriana morreu na hora. A família da professora entrou com ação na Justiça e o Estado foi condenado a pagar uma indenização de R$ 60 mil, porque seu funcionário cometeu um erro durante o trabalho. O juiz Pedro Aurélio Pires, em sua sentença condenatória escreveu que o disparo que vitimou a jovem foi “precipitado, inconseqüente e irresponsável”.


Rio de Janeiro, junho de 2000 – O ônibus 174

Ônibus 174
Agência Estado
O caso do sequestro do ônibus 174 é um exemplo de erro das tropas de elite


Sandro do Nascimento seqüestrou o ônibus com onze passageiros, próximo ao Centro no Rio de Janeiro. Os policiais chegaram. A tropa de elite do Bope – Batalhão de Operações Policiais Especiais assumiu as negociações que durou cerca de quatro horas. Durante este tempo o bandido, na janela do coletivo, segurava pelo pescoço a professora Geisa Firmo Gonçalves, de 20 anos. O revólver dele, sempre apontado para a cabeça dela. Em determinado momento o bandido foi convencido a se entregar e desceu do veículo, ainda segurando Geisa e apontando a arma pra ela. Foi quando um dos policiais do Bope decidiu arriscar: avançou em direção ao seqüestrador e disparou duas vezes. Errou os dois tiros: um se perdeu e o outro acertou o queixo de Geisa. Surpreso, o bandido apertou o gatilho e matou a professora, com três tiros. Ali, no meio da rua, quando todos pensavam que a ocorrência terminaria bem. A precipitação de um policial do Bope – que agiu quando a ocorrência estava praticamente terminada e com muita possibilidade de sucesso – fez a história acabar mal. Rendido, Sandro foi preso e colocado na viatura do Bope para ser levado para uma delegacia. Não chegou: foi morto no caminho, asfixiado. A história virou filme, aliás dirigido por José Padilha, o mesmo diretor de Tropa de Elite.


Mato Grosso, maio de 2007


Era para ser uma festa. O evento, promovido pela prefeitura de Rondonópolis, era para anunciar que os moradores seriam beneficiados com algumas ações sociais. Muita gente compareceu para ver o desfile de alunos da escola local, dos bombeiros e do GOE – o Grupo de Operações Especiais, a tropa de elite da Polícia Militar de Mato Grosso. Para tornar a apresentação interessante, o GOE fazia uma demonstração de combate e domínio de uma situação de assalto a ônibus com reféns. Do lado de fora policiais faziam um “cerco” ao coletivo. Dentro do ônibus (colocado na praça especialmente para a simulação) outros sete policiais faziam o “papel” de seqüestradores e, conforme combinado, começaram a atirar contra os policiais que estavam do lado de fora. Aí a surpresa: gritos, sangue, correria. As balas que deveriam ser todas de festim eram de verdade! As armas que estavam com os policiais dentro do ônibus tinham sido carregadas com projéteis reais!
Um erro absurdo em se tratando de qualquer tipo de polícia, quanto mais para uma “especial”, de elite. Um menino de 12 anos, Luiz Henrique Dias Bulhões, levou dois tiros e morreu. Outras doze pessoas (entre elas outras oito crianças) foram feridas. A lista de feridos incluiu também um policial militar.