Operações especiais

Uma das características da Polícia Federal nos últimos anos é preparar grandes operações, que envolvem centenas de policiais e que muitas vezes são feitas simultaneamente em vários Estados brasileiros. Com mandados de prisão que vão de 20 até 70 pessoas (como já aconteceu em muitas desta operações da PF), eles invadem residências e escritórios dos acusados e supostos envolvidos e fazem as prisões. Em geral, estas ações são feitas entre três e cinco horas da manhã, para pegar o suspeito de surpresa. De pijamas, os suspeitos são acordados e detidos. Para muitos são ações que devem continuar sendo feitas porque, em geral, pegam importantes integrantes dos esquemas e não só os “peixinhos miúdos”. Para outros, é um gasto inútil porque a maioria dos detidos acaba sendo liberados pela Justiça.

São operações caras, que envolvem muita gente, viaturas, combustível, serviço de inteligência – com escutas telefônicas e gravações. Todas as operações recebem um “nome”.

Em fevereiro de 2008, por exemplo, a PF fez a operação Fariseu e desmontou um esquema de corrupção que envolvia emissão de títulos de filantropia a escolas, faculdades e hospitais. Se uma entidade é considerada “filantrópica” ela consegue vantagens fiscais que as livram de pagar muitos impostos ao governo (às vezes, dependendo do caso deixa de pagar milhões já que, filantrópica, estaria ajudando doentes, cegos, estudantes necessitados). No caso os detidos “vendiam” certificados de filantropia a entidades que não preenchiam os requisitos de uma empresa filantrópica.

As entidades compravam os títulos, se beneficiam deixando de pagar impostos e é claro, pagavam uma parte a quadrilha que conseguia os títulos de “entidade filantrópica” Para chegar aos culpados e prendê-los a PF levou quatro anos investigando a quadrilha.

Como a Operação Fariseu, a PF já fez muitas outras: de 2003 a 2008 foram mais de 350. Ações que foram “batizadas” pela PF, às vezes até com nomes esquisitos: Concha Branca, Medusa, Tempestade no Oeste, Pardal, Farol da Colina, Poeira no Asfalto, Catuaba, Predador, Big Brother, Tango, Cevada, Veneno, Dragão, Curupira, Roupa Suja, Terra Limpa, Firula, Mandrake, Sanguessuga e outras dezenas de nomes escolhidos em cada operação.

Nelas foram dezenas as falcatruas descobertas. Quadrilhas ligadas ao tráfico nacional e internacional de drogas foram desmanteladas, outras eram ligadas a contrabando ilegal de madeira e de cigarros. Bandidos ligados à clonagem de veículos, outros que falsificavam leite em pó. Prendeu pessoas que desviavam dinheiro de obras públicas, que cometiam crimes ambientais e outras que até mandaram matar. Até uma quadrilha que vendia sentenças judiciais foi desmantelada numa das mais importante operações já feitas, a Anaconda, quando foi preso o juiz João Carlos da Rocha Mattos. A acusação da PF foi que, por dinheiro, a quadrilha dava um “jeitinho” de diminuir em muito a pena do bandido.

Um levantamento recente mostrou que com estas operações a PF acabou com organizações criminosas que movimentaram mais de R$ 50 bilhões, fazendo o pais perder (portanto nós perdermos) cerca de 18 bilhões de dólares em sonegação fiscal e desvio de dinheiro. De 2003 a 2007, nestas ações a PF prendeu 3.712 pessoas, das quais 1.098 eram servidores públicos.

O juiz João Carlos Rocha Matos
Tiago Queiroz/Agência Estado
O juiz João Carlos da Rocha Matos escoltado pela PF


Mais do que nunca a Polícia Federal trabalhou muito e mandou para trás das grades não só os pequenos, os peões” do esquema, mas sim empresários, policiais civis, advogados, juízes, fiscais, policiais rodoviários, auditores fiscais do trabalho, vereadores, funcionários do INSS, e até mesmo policiais federais envolvidos com corrupção (como um que foi preso em Rondônia acusado de extração ilegal de diamantes), mostrando que não há corporativismo e se a acusação for contra um policial da própria PF, ele será investigado e preso se for culpado. Entre os detidos, no total, foram 107 integrantes (agentes e delegados) da própria polícia federal. Se prendeu tanta gente, evitou a continuidade de muitas quadrilhas e muitos esquemas corruptos, porque a Polícia Federal é criticada em relação as operações que faz?

Muito alarde, mas pouca gente na cadeia

Investigar, cumprir os mandados e prender tanta gente (mais de 3 mil) não quer dizer que todas essas pessoas continuaram presas. Das 3.712 pessoas presas em 216 ações da Polícia Federal de 2003 a 2006, apenas 432 foram condenadas e, efetivamente, 265 ficaram presas. O levantamento foi feito pela Revista Época, a quem o diretor da PF, Luiz Fernando Corrêa, em fevereiro de 2008, declarou: “rompemos com a inércia do imaginário do cidadão. Hoje todos estão conscientes de que podem ser alcançados pelo Estado”. É verdade: a polícia partiu pra cima de poderosos, como a população não estava acostumada a ver. De rosto coberto, escondendo a cara sob as próprias camisas ou paletós, empresários, juizes, fiscais, policiais, foram gravados pelas câmeras de emissoras de TVs e máquinas fotográficas dos principais jornais do pais. Mas, na fase seguinte, a da “condenação” a coisa muda. Poucos são condenados a penas duras e sérias, na verdade poucos foram condenados, o que mostra uma falha na justiça ou confirma o que muitos brasileiros pensam: prender os mais poderosos agora até prendem, mas eles são realmente condenados e realmente ficam atrás das grades?

“A Justiça não trabalha com rapidez e se o preso tiver status, dinheiro e poder, como é a maioria dos que prendemos neste últimos anos, a Justiça fica mais lenta, mais cega, muda e surda” diz um importante delegado da PF em São Paulo. “Um “zé-mané-qualquer” leva logo de 8 a 15 anos de prisão por qualquer razão, e sem dinheiro para se defender é condenado, muitas vezes, sem sequer entender o processo. Mas os “poderosos” que a PF tem prendido nos últimos quatro anos, especialmente, não. Roubaram, traficaram, meteram a mão no dinheiro do povo, o suficiente para poder pagar advogados caríssimos (que para mim é outra máfia, ressalta o delegado), que acabam protelando (adiando) tanto a história e o processo que o sujeito, que provamos até por escutas telefônicas, que era culpado, fica em casa esperando o resultado, que vai sendo adiado e adiado e adiado pela justiça até que o “poderoso” se livra do processo e nunca vai preso”. O desabafo é de um delegado da Polícia Federal de São Paulo, que há 25 anos dedica sua vida e carreira ao combate ao crime. Já foi investigador e foi a luta para se tornar delegado, carreira que exerce há 11 anos. Já fez parte de várias das operações da PF e dispara suas farpas: “nós investigamos, gravamos, provamos... E a Justiça “senta” em cima de tudo isso e favorece os poderosos que prendemos. Ficam na cadeia os peixes pequenos. Os grandes são liberados pelos juízes e continuam impunes, voltando ao crime pelo qual nós os prendemos, depois de horas, meses, anos de investigação”. O delegado que falou com a HSW, em março de 2008, preferiu não se identificar. “Veja você: se em nossas operações – muitas vezes injustamente criticadas, até juízes nos prendemos, como acreditar na Justiça? Nesta hora deixo de ser delegado, e me sinto como qualquer cidadão: frustrado e me sentindo impotente”.