Platão e a Academia

Em sua temporada na Sicília, Platão tornou-se amigo de Dion, cunhado de Dionísio, tirano de Siracusa. Mas a postura aristocrática de Platão não combinava com o provincianismo da corte. O filósofo zombava dos hábitos locais e comentava que o conceito de felicidade para cada homem em Siracusa consistia em se empanturrar duas vezes ao dia e em nunca dormir sozinho. Além disso, suas discussões com o tirano local o levaram a ser preso e deportado para Egina onde seria vendido como escravo.

A humilhação e o susto foram amenizados quando Platão acabou sendo comprado no mercado de escravos por seu amigo Aniqueris, que enviou o filósofo para Atenas com dinheiro suficiente para construir uma escola. Em 386 a.C., Platão iniciou o projeto que resultaria na Academia, a primeira universidade da história. A Academia continuou a existir até o século 6, quando o imperador Justiniano a fechou como parte de seu plano de abolir a cultura helenista pagã.

A Academia foi fundamental para Platão divulgar sua obra e também os pensamentos de Sócrates de quem foi o porta-voz. Em “A República”, a obra mais conhecida do filósofo, ele mostra o diálogo de Sócrates e várias personalidades. Nesse contexto, Sócrates desenvolve sua visão sobre uma sociedade justa, mas o que está ali na verdade são as ideias do próprio Platão. Para ele, na república ideal não haveria propriedades ou casamentos, as crianças seriam educadas comunitariamente pelo Estado e longe dos pais. Tudo para prepará-las para serem filósofos-governantes e dentre eles sair o filósofo-rei.

Após a morte de Dionísio, o tirano, e incentivado por Dion, Platão voltou a Siracusa sob a perspectiva de que poderia colocar em prática sua utopia. Para isso precisaria convencer Dionísio, o Jovem, a adotar sua ideias. Mas Platão não foi bem-sucedido. Se tivesse sido, Siracusa poderia ter se tornado um estado fraco, sucumbido a Cartago que provavelmente sufocaria o nascente Império Romano.

De volta a Atenas e à Academia, Platão continuou a desenvolver seus pensamentos que sugeriam que o mundo real não é aquele que apreendemos e descrevemos. Ele desenvolveu também sua visão sobre o amor na obra “O Banquete”. Nela, o filósofo afirma que Eros é o impulso da alma em direção ao bem e estabelece diferentes níveis de amor. No mais inferior, está a paixão por pessoas bonitas e o desejo de ter filhos. No mais elevado, está o amor à filosofia e a busca do Bem. Nos diálogos presente em “O Banquete” há um trecho em que Alcibíades descreve seu amor homossexual por Sócrates, o que levou o livro a entrar na lista das obras proibidas pela Igreja Católica.

Platão se dedicou à Academia até os 81 anos de idade, quando morreu. Nos séculos seguintes suas ideias tornaram-se parte da tradição cristã e vários pensadores ajudaram a tornar o platonismo uma influente escola filosófica.