Como funciona o PCC - Primeiro Comando da Capital

Autor: 
Fátima Souza
PCC

O PCC é hoje a maior facção criminosa do país. Criado dentro da cadeia e sempre liderado por um grupo de presos, o Primeiro Comando da Capital surgiu em 1993 e calcula-se que hoje tenha cerca de 130 mil representantes, dentro e fora das prisões. Um verdadeiro “sindicato do
Crime” que comanda rebeliões, fugas, resgates, assaltos, seqüestros, assassinatos e o tráfico de drogas. É na venda de maconha e cocaína que está seu maior faturamento.

Primeiro Comando da Capital mostrou sua cara durante a megarebelião de 2001
Agência Estado
Primeiro Comando da Capital, o PCC, tem sua base nos presídios paulistas

O roubo de cargas e os assaltos a bancos também engordam o “caixa” do PCC. E falamos em muito dinheiro. Em Março de 2006, um documento encontrado pela polícia, mostrava que naquele mês o faturamento da facção, em apenas um dos livros-caixas, chegou a R$ 1,2 milhão.

Embora tenha nascido em São Paulo, onde seu poder é maior, o PCC também invadiu as “fronteiras” e está presente em vários estados brasileiros, como Rio de Janeiro, Bahia, Alagoas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Minas Gerais e Rondônia.

Em Maio de 2006, em depoimento a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado, em Brasília, Godofredo Bittencourt, então diretor do Departamento Estadual de Investigação Criminal (Deic) – encarregado de investigar o PCC, disse:“Houve uma época em que o governo do Estado cometeu um erro, quando pegou a liderança do PCC e os bandidos mais perigosos e os redistribuiu pelo Brasil, entre Brasília, Rio Grande do Sul e outros estados como Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul e Bahia... então, isso, na realidade, acabou fazendo um “acasalamento” certo? Então, na realidade o PCC é forte na capital, mas ele é apoiado em todo o Brasil, aonde vai. Virou realmente uma febre”.

O comando criminoso esbanja atrevimento. Conseguiu, ao longo destes anos, cooptar até advogados, que passaram de defensores de detentos, para aliados ao “partido”. Vários advogados já foram presos acusados de levar ordens de uma cadeia a outra a mando do PCC.

Criativo – para o lado do mal é claro – o PCC paga curso de direito para estudantes com o objetivo de que, no futuro, quando formados, eles venham a defendê-los.

Até uma página na internet o PCC chegou a ter. Foi criada por um detento que – considerado de bom comportamento – podia usar o computador da sala do diretor do presídio. Usou para fazer a página do PCC, descoberta por jornalistas e tirada do ar pela polícia.

O principal aliado do comando é o telefone celular, presente dentro de quase todas as 140 cadeias paulistas. Com eles os chefes do PCC dão suas ordens para outras cadeias e para os que estão do lado de fora. Ordens do crime. Em uma cadeia do interior de São Paulo, durante uma blitz, a polícia encontrou, na cela de um único preso, oito celulares. Era uma verdadeira cela-escritório de onde o detento comandava seus “negócios” traficando drogas entre São Paulo, Minas Gerais e Paraná.

O “poder” do PCC nas cadeias é tão grande que em uma delas, a Penitenciária de Araquara, também no interior de São Paulo, montaram um verdadeiro prostíbulo. Mulheres de programa eram contratadas para prestar “serviços” aos detentos do PCC. Virou quase que um motel. A serviço dos bandidos. No Cabaré do Crime cada programa custava de R$ 100 a R$ 300, dependendo da mulher e do dinheiro do bandido. A festa na cadeia durou quase dois anos e só terminou em 2005 quando a polícia e o Ministério Público receberam denúncias e foram investigar. No inquérito, com mais de 200 páginas, estão os depoimentos de dez prostitutas ao delegado Jesus Nazaré Romão, responsável pelo caso. Todas elas confirmaram que mantiveram relações sexuais na cadeia com presos do PCC.

No ano passado, um funcionário do presídio foi preso e acusado de facilitar a vida de chefões da facção. Recebeu dinheiro para permitir, entre outras coisas, que os detentos pudessem encomendar suas refeições em um restaurante da cidade. Disse a polícia que um dos chefões pedia, constantemente, um suculento prato de camarões... Este mesmo chefão ganhou o direito de ter, em sua cela, um colchão d’água!

É assim o PCC: um grupo do crime organizado atrevido e audacioso.

­Advogados fora da lei

Até 2007, o Deic havia prendido e indiciado dez advogados, incluindo três advogadas.Dois advogados chegaram a ser condenados. Anselmo Neves Maia foi preso em 2001 e, indiciado por favorecimento ao crime foi para a cadeia onde cumpriu dois anos da pena. Foi solto em Novembro de 2003. O advogado Mário Sérgio Mugioli foi acusado de formação de quadrilha e, condenado, passou quatro anos na cadeia.

Em 2006 foi presa Maria Cristina Souza Rachado (defensora de Marcola e outros da facção) acusada de pagar propina para que o funcionário do som da Câmara dos Deputados do Congresso Nacional, cedesse a ela a gravação dos depoimentos de dois delegados do Deic à CPI do Tráfico de Armas, que acontecia em Brasília. O depoimento era sigilosos e reservado mas a advogada conseguiu a cópia, pagando ao funcionário. As conversas dos dois delegados com os deputados chegaram às mãos o Marcola e de outros líderes da facção. Era o PCC espionando o Congresso.

Os três casos estão em processo final na OAB - Ordem dos Advogados do Brasil que vai decidir se expulsa os advogados, ou seja,se eles perderão o diploma.