Da clandestinidade às Paradas do Orgulho Gay

Até os anos 50, a vida social dos gays era totalmente clandestina. Quem se arriscava a manifestar abertamente suas preferências sexuais corria o risco de ser preso. Mas com o surgimento do movimento de contracultura na década de 60, que pregava, entre outras coisas, a liberdade sexual, a comunidade gay se animou com a possibilidade de ser finalmente reconhecida socialmente. Só que a sociedade, representada por políticos conservadores, viu neste movimento uma ameaça iminente à ordem social e intensificou a repressão que já era rotineira.

Parada Gay em SP­
Foto: Paulo Otero
A Parada do Orgulho Gay de São Paulo entrou para o
Guinnes Book após reunir 2,5 milhões de participantes em 2006

Incomum, no entanto, é que alguém resistisse à repressão. Por isso, quando em 1969, a polícia de Nova York invadiu o bar Stonewall Inn, freqüentado por gays, ficou surpresa com os violentos protestos que se seguiram. Cansados das perseguições e humilhações, eles se rebelaram e enfrentaram a polícia por mais de uma semana. Sinal de que algo estava mudando, o episódio se transformou em marco inaugural do movimento gay. No ano seguinte, no dia do aniversário do protesto de Stonewall, a Frente para Libertação Gay organizou uma marcha em Nova York, sendo imitada por outros grupos ativistas gays em Los Angeles e São Francisco. Essas primeiras paradas, que tinham ao mesmo tempo um caráter sério e divertido, acabaram inspirando a realização de outras manifestações ao redor do mundo.

A partir dos anos 80, no entanto, houve uma mudança no perfil das paradas. Elas passaram a ser mais organizadas, porém menos radicais, ganhando um caráter cada vez mais festivo. Renomeadas desde então como Paradas do Orgulho Gay, acontecem no meio do ano em várias cidades do mundo, em referência ao episódio de Stonewall. Apesar de manterem um pouco da proposta ativista, transformaram-se também em uma grande festa onde a música, as danças, as performances e as caracterizações, além dos eventos paralelos, atraem cada vez mais participantes, não só membros da comunidade como também simpatizantes e curiosos. Evento que quanto mais aumenta de proporção em várias cidades do mundo, mais ganha o apoio e o patrocínio de governos, entidades e empresas privadas.

Oportunidade de divulgar as reivindicações mais nobres pelas quais a comunidade gay luta, as paradas se transformaram em importantes eventos turísticos, que ajudam a movimentar um representativo mercado gay. De acordo com a revista Brandweek, o segmento representa um gasto anual que fica entre US$ 250 e US$ 350 bilhões de dólares somente nos Estados Unidos. Sendo que, apenas o setor de viagens representa US$ 54 bilhões de dólares anuais, segundo a International Gay and Lesbian Association. Já de olho neste significativo potencial de consumo, empresas como Bud Light, Virgin America, Smirnoff, AT&T, Wells Fargo, San Francisco Toyota, Bank of America, Diet Pepsi, entre outras, já investem em eventos como a parada de São Francisco, que reúne um milhão de pessoas.

Em São Paulo, a primeira parada gay aconteceu em 1997, na Avenida Paulista, reunindo duas mil pessoas. Nos anos seguintes, o número de participantes saltou para sete mil e 35 mil pessoas. Em 2000 passou a contar também com a realização de eventos paralelos com o objetivo de estimular discussões sobre a questão da homossexualidade, atraindo 120 mil pessoas. Em 2001 e 2002, o evento dobrou de tamanho, recebendo respectivamente 250 mil e 500 mil participantes. E continuou crescendo nos anos seguintes, ganhando o título de maior parada gay do mundo em 2006, com o recorde de 2,5 milhões de participantes, segundo o livro “Guinness 2007”.

Pop eletrônico para animar a festa

Um dos principais ingredientes das paradas gays é a música, que garante a animação durante todo o evento. Embora vários gêneros tenham espaço, é o pop eletrônico (som gay por excelência desde os anos 70) que domina o repertório. Conheça algumas canções que fazem sucesso nas pistas de dança e nas ruas em todo o mundo:

I Feel Love - Donna Summer

Enjoy The Silence - Depeche Mode
Everybody - Madonna
You Make Me Feel - Jimmy Sommerville
Pump Up The Jam - Technotronic
Big Fun/Good Life - Inner City
Love and Happiness - River Ocean feat. India
Feel What You Want - Kristine W.
Womans Got the Power - Jenifer Holliday
Strings of Life - Strings Of Life

Inicialmente freqüentadas apenas por gays, hoje as paradas viraram uma grande festa popular. Atraem cada vez mais um público eclético, formado por jovens heterossexuais, famílias, simpatizantes, curiosos, entre outros, que vão ao evento para se divertir com a música e com a enorme variedade de tribos ou “identidades” que a cada ano surgem dentro da genérica categoria gay. Entre elas, os transexuais, os travestis, os bissexuais, os ursos (gays obesos), os barbies (malhados e depilados), entre inúmeras outras autodenominações, que sempre contribuem para a animação da festa.

Por seu tamanho e impacto econômico crescentes, a Parada Gay de São Paulo está começando a atrair também patrocínios financeiros. Ainda sem o apoio de empresas privadas, o evento já conta com recursos do poder público, que vê a arrecadação da cidade aumentar na época do evento. Segundo uma pesquisa realizada em 2006 pela São Paulo Turismo S/A, a economia paulistana recebe um “reforço” de mais de 200 milhões de reais a cada parada, distribuídos entre bares, cinemas, teatros, shoppings, lojas, transporte e agências de viagem.