As representações da paixão de Cristo

Relembrar a paixão de Cristo é uma tradição no Brasil, país com o maior número de católicos no mundo – 74% da população brasileira se declara seguidora do catolicismo segundo levantamento do IBGE. Das paróquias mais distantes às grandes catedrais, as celebrações na Sexta-Feira Santa incluem encenações sobre o calvário de Jesus. Nas últimas décadas, as teatralizações dessa narrativa bíblica têm crescido e em alguns casos virado superproduções.

Espetáculo em Nova Jerusalém
Divulgação
Cena da representação da paixão de Cristo em Nova Jerusalém (PE)

A mais famosa encenação da paixão de Cristo no Brasil é a que acontece em Nova Jerusalém, cidade cenográfica construída próxima ao município de Brejo da Madre de Deus, no interior de Pernambuco. O costume de fazer uma encenação teatral dos últimos dias da vida de Jesus existe na região desde 1951 quando um dos fazendeiros locais resolveu celebrar a paixão de Cristo da mesma forma que os moradores de uma cidade do interior da Alemanha o faziam. A partir de 1968, essas encenações passaram a acontecer numa cidade cenográfica construída à semelhança de parte de Jerusalém na época de Jesus. Desde então, anualmente a cidade de Nova Jerusalém tem realizado durante a Semana Santa espetáculos que reproduzem a paixão de Cristo com cenários, elencos e efeitos especiais cada vez mais sofisticados. Em 2007, 500 atores e figurantes, juntos com outros 400 profissionais, encenaram o espetáculo durante oito dias para um público de 70 mil espectadores. Segundo os organizadores, cerca de 2,5 milhões de pessoas assistiram às encenações desde 1968 em Nova Jerusalém.

A partir da segunda metade dos anos 90, a presença de atores que participam das mais populares novelas da televisão brasileira no elenco da encenação tem aumentado a visibilidade do espetáculo, o que trouxe também maior interesse do público e dos patrocinadores, segundo os organizadores. Na edição 2008, participam da encenação o ator Thiago Lacerda, no papel de Jesus Cristo, e a Miss Brasil Natália Guimarães, como Maria Madalena.

A teatralização dos últimos momentos da vida de Jesus também ganhou ares de superprodução em uma cidade do interior de São Paulo. Encenada às margens do Rio Piracicaba, com cerca de 500 atores voluntários, em 12 palcos e com uma hora e meia de duração, a “Paixão de Cristo de Piracicaba” acontece desde 1990 e chega a atrair cerca de 30 mil pessoas durante os oito dias em que fica em cartaz. Outras 30 mil pessoas devem assistir à encenação da versão da paixão de Cristo feita na cidade de Maringá, no Paraná. Desde 2004, acontece a encenação ao ar livre na praça em frente à catedral da cidade. Já em João Pessoa, na Paraíba, a teatralização dos últimos momentos da vida de Jesus ganha elementos contemporâneos e circenses, como trapézios e camas elásticas. Em 2007, a encenação foi feita a partir do texto da dramaturga Cely de Freitas e narrava a história de Jesus a partir do olhar de três lavadeiras (Maria da Graça, Maria das Dores e Maria da Glória).

Além das teatralizações pelo Brasil, a paixão de Cristo rendeu nas últimas décadas versões cinematográficas internacionais polêmicas. “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, é a mais recente de uma série de interpretações contemporâneas dos momentos mais importantes do que teria sido a história de Jesus. Filmes como “A Última Tentação de Cristo” (1988), dirigido por Martin Scorsese, ou até mesmo a ópera-rock “Jesus Cristo Superstar” (1973), dirigida por Norman Jewison, fazem parte de uma filmografia que reflete a diversidade de interpretações que essa narrativa bíblica tem oferecido.