![]() Foto cedida ILM O barco pesqueiro Andrea Gail, em "Mar em fúria" |
Como todos os medos embutidos no inconsciente coletivo, o naufrágio é um dos favoritos de Hollywood. E se um barco de pesca estivesse no meio de um turbilhão de tempestades? E se um navio de luxo fosse virado de cabeça para baixo por um tsunami em questão de segundos? E se um navio naufragado virasse um fantasma?
Existem milhares de naufrágios da vida real nos livros de bordo: navios destruídos por tempestades, cortados por icebergs, tomados por problemas mecânicos e explodidos por mísseis ou balas de canhão. A última é a razão mais comum para que um navio afunde, mas a natureza, algumas vezes com a ajuda da tolice do homem, afunda um barco.
O Mary Rose
O rei Henrique VIII, da Inglaterra, viu "o mais belo dos navios que já havia navegado" virar de ponta-cabeça com uma rápida ventania em 1545. Em meados do século XVI, os navios estavam fazendo a transição entre fortalezas flutuantes e verdadeiros navios de guerra, e o Mary Rose foi um dos primeiros navios a ter artilharia (armas colocadas na lateral do navio, acima do nível da água). Ao sair de Southsea, Inglaterra, numa missão para interceptar navios franceses que invadiram a costa, ele levava 700 tripulantes e pelo menos 90 armas. Esse tipo de armamento deve ter feito a parte de cima do navio ficar pesada, porque uma ventania o virou de ponta-cabeça em questão de minutos. A artilharia terminou com o desastre: a água entrou imediatamente nas armas, e o navio afundou antes de a tripulação conseguir escapar. Mais de 650 marinheiros morreram no naufrágio. Equipes recuperaram o Mary Rose em 1982 e agora ele está na Portsmouth Historic Dockyard (Doca Histórica de Portsmouth), em Hampshire, Inglaterra.
O Atocha
Aproximadamente 70 anos depois, outro navio, dessa vez espanhol e carregando tesouros, afundou durante uma tempestade inesperada. O Atocha fazia parte da "frota do tesouro" e cumpria missões constantes, da Espanha para as colônias sul-americanas. Ele carregava suprimentos para os colonos e voltava para a Espanha com o pagamento em ouro e prata. O Atocha era o navio que carregava mais carga na frota e por isso tinha soldados a bordo para defender o tesouro contra os piratas; por ter soldados a bordo, era o navio da frota que os civis mais escolhiam para viajar. Numa viagem em 1622, o navio tinha de sair das colônias em direção à Espanha antes da temporada de furacões começar (em julho), mas havia mais carga do que o esperado e demorou muito para carregar o navio na Colômbia, o que fez com que a viagem começasse atrasada, em julho. No começo de setembro, depois de uma parada em Havana, o Atocha partiu para a Espanha.
Começando com um clima perfeito, ele fez sua viagem lenta e esperada em direção a Florida Keys. Ao cair da noite, o mar ficou agitado, com ventos, e ao raiar do dia o Atocha foi pego por uma terrível tempestade, que destruiu seus mastros, velas e cordames. Fora de controle, o Atocha havia deixado Florida Keys sem esperanças, até que uma enorme onda o atingiu e fez com que ele batesse num recife de corais. O navio afundou como uma rocha, com toneladas de prata e ouro puxando-o para o fundo do mar. Apenas cinco dos 265 tripulantes e passageiros sobreviveram. Houve tentativas imediatas de recuperar o tesouro, mas até a invenção da Scuba, em 1942, as tentativas foram praticamente inúteis. Em 1985, entretanto, depois de uma procura de 16 anos, Mel Fisher encontrou o Atocha e seu tesouro a 17m de profundidade ao largo das Florida Keys.
Embora a natureza consiga destruir um navio sozinha, normalmente os seres humanos dão uma mãozinha. Os desenhistas do Titanic superestimaram sua invencibilidade. Os pescadores do Andrea Gail escolheram os produtos no lugar da precaução, e os proprietários do Brother Jonathan ameaçaram encontrar um novo capitão se o de então não permitisse a sobrecarga do navio.
Brother Jonathan
O navio de carga a vapor Brother Jonathan fazia uma rota do norte da Califórnia para o noroeste do Canadá pela California Steam Navigation Company (Companhia de Navegação a Vapor da Califórnia). Em 1865, um homem chamado DeWolfe era o capitão e, enquanto o navio estava ancorado no porto de São Francisco sendo carregado, ele percebeu que estava afundando perigosamente - e os 190 passageiros nem haviam embarcado ainda. DeWolfe contou ao representante do proprietário que o carregamento teria de parar - caso contrário, o navio não conseguiria navegar. O agente disse a DeWolfe que ele poderia tanto permitir o carregamento de toda a carga disponível quanto dar o navio a outro capitão. Quando a carga de várias toneladas de minério triturado foi então colocada a bordo, foi depositada em uma parte da quilha que havia sido recentemente consertada, após um acidente.
Quando o navio tentou sair do porto, o capitão e a tripulação descobriram que estava muito lento por estar, na realidade, preso na lama. Eles tiveram de esperar pela maré alta e por um rebocador para começar a se movimentar; quando isso aconteceu, caíram direto numa tempestade. No dia seguinte, a tempestade tinha aumentado, e o Brother Jonathan estava danificado. O capitão decidiu ir para um porto seguro. Quando um tripulante foi preparar as âncoras para a chegada, viu uma rocha submersa que não estava nas cartas marítimas. Era tarde demais para evitá-lo. Segundos depois uma onda ergueu o navio e o fez bater na rocha submersa de 76,2 m (agora chamado de Jonathan Rock), o que rasgou a quilha e segurou o navio enquanto as ondas continuavam atingindo-o e empurrando-o contra o rochedo. A parte inferior do navio estava se quebrando. Quando o triturador de minério caiu bem na parte mais prejudicada do que havia restado da quilha, DeWolfe deu ordem para abandonar o navio.
A terrível tempestade e a posição do navio no rochedo praticamente impossibilitaram a evacuação, e os barcos salva-vidas não conseguiam chegar ao navio em razão do mar agitado. O Brother Jonathan afundou na costa norte da Califórnia e apenas um barco salva-vidas conseguiu levar, com segurança, 19 pessoas. O restante dos passageiros e tripulação, 225 pessoas, morreu no naufrágio.
![]() Foto cedida California State Lands Commission, San Francisco Maritime National Historic Park (Parque Histórico Marítimo Nacional de São Francisco), Doris Chase Collection No sentido horário, a partir da parte superior esquerda: Brother Jonathan antes da restauração de 1852; Brother Jonathan depois da restauração de 1861. Cilindro de vapor do Brother Jonathan; engrenagem das rodas dos cabos dos remos e quilha do Brother Jonathan. |
Em tempos de paz, os naufrágios mais desastrosos normalmente são resultado da combinação de má sorte e mau planejamento, como foi o caso do Brother Jonathan, mas quando o mau planejamento diz respeito à sobrecarga de passageiros no lugar de carga, as conseqüências podem ser ainda mais devastadoras.