O massacre

Entre 1995 e 1996, um grupo de sem-terra, comandado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), passou alguns meses na frente da fazenda Macaxeira, uma das várias grandes propriedades existentes na Amazônia. Os sem-terra diziam que ela era improdutiva e que, possivelmente, parte de suas terras fossem griladas, por isso, queriam-na para começar um projeto comunitário. Com a falta de posição dos órgãos responsáveis - como o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) -, os sem-terra começam em 10 de abril uma marcha para Belém.

No dia 16, eles acampam às margens da ainda estrada de terra PA-150, na curva do S, e fecham a estrada no final da tarde, reivindicando cestas básicas e ônibus para continuar a viagem até a capital do Estado, uma jornada de cerca de 500 quilômetros. No dia 17, sem resposta, a tensão aumentou.

Enterro dos 19 sem-terra
Ary Souza/O Liberal
Enterro das vítimas do massacre


Quase no final da tarde, chegam ao local as tropas de Marabá e Parauapebas, duas cidades vizinhas e maiores. Vindas de sentidos opostos, as tropas se posicionam uma de cada lado da estrada, fechando o cerco. Uma equipe de televisão, da afiliada da Rede Globo no Estado, também vai para o local. Há uma rápida tentativa de negociação entre os sem-terra, mas a ação já está pronta. O tiroteio começa, e o primeiro a cair morto é o sem-terra Amâncio Rodrigues dos Santos, que era surdo-mudo, e não ouve os primeiros disparos. Ele leva um tiro na cabeça, um no braço e outro na cintura. As imagens que muitos vêem na televisão mostram os sem-terra avançando contra os policiais com paus e pedras. Eles tentam resgatar Amâncio, que já estava caído. Após esse momento, a equipe de televisão é obrigada pelos policiais a se esconder em uma casa e depois de tentar gravar mais alguma coisa seus integrantes são ameaçados e levados para o ônibus que levou parte das tropas para o local.

O que aconteceu em seguida só é possível resgatar através de depoimentos e dos laudos dos peritos legais. Eles mostram a pré-disposição de matar dos policiais:

  • No total, foram 40 minutos de tiros e gritos de socorro até o final da operação.
  • Alguns líderes dos sem-terra como Oziel Alves Pereira foram levados para o meio da mata e foram mortos com foices. No caso de Oziel, ele foi parcialmente escalpelado.
  • Dos 19 mortos, 13 eram dirigentes do MST.
  • Dos 19 mortos, 10 levaram mais de um tiro.
  • Nas vítimas fatais, 17 tiros atingiram cabeça, pescoço, peito ou abdômen.
  • Os laudos mostram espancamentos e fraturas expostas em algumas vítimas.
  • As mulheres e crianças foram obrigadas pelos policiais a se refugiarem em casebres ou tiveram que esconder os seus rostos nas valas de terra à beira da estrada.
  • Todos os policiais atuaram com tarjas pretas nos bolsos, onde usualmente ficam escritos os seus nomes.
  • Não houve, como é comum, o recolhimento de nenhuma guia assinada pelos soldados para as armas que foram retiradas do almoxarifado da Polícia Militar.

Os dias que se passaram após o massacre foram ainda mais tensos no Pará. Acusações de vários lados dos sem-terra aos fazendeiros, dos fazendeiros aos sem-terra, da polícia aos sem-terra etc. Houve ainda uma intervenção federal no Estado com a presença de representantes da União acompanhando as investigações. A conclusão óbvia é que 150 policiais ganharam uma guerra contra 1.500 sem-terra, causando mortes.
Mas a novela ainda não tinha um desfecho, havia ainda um julgamento, ou melhor, dois.

Assentamento

Poucos meses depois do massacre, a fazenda Macaxeira, razão principal dos protestos no Pará, foi desapropriada e tornou-se o assentamento 17 de abril. Hoje, é uma vila agrária. Ao contrário do imaginado no início, não há grandes projetos comunitários no assentamento. Alguns, poucos, venderam seus lotes. Outros produzem uma agricultura quase de subsistência com o excedente sendo vendido para o comércio local das cidades ao redor. Não é definitivamente o grande eldorado, mas há escola para as crianças e a certeza de um pedaço de terra. Para homenagear os que morreram por essa vila, além do nome do assentamento, as principais ruas de terra do íngreme terreno levam o nome dos 19 mortos naquele 17 de abril de 1996.