O Príncipe e Maquiavel
Nos primeiros anos do século 16 a atuação pública de Maquiavel foi tentar evitar em suas missões diplomáticas que a tempestade política e militar que desabava sobre a Itália atingisse Florença. Ele procurou também fazer com que a cidade-estado tivesse a sua própria milícia formada por cidadãos de seus territórios e não mais por mercenários. Nesses anos, conduziu a retomada militar da cidade de Pisa e chefiou missões diplomáticas na Alemanha e na França, na tentativa de evitar uma guerra contra Florença. Mas, como o próprio Maquiavel reconheceu, quando se tem o poder na luta pelo poder, não há necessidade de negociar. As forças da Santa Aliança (formada pela associação do imperador Maximiliano com o papa) cercaram e avançaram sobre Florença, sendo que a milícia criada por Maquiavel se recusou a enfrentar o exército invasor.
 © istockphoto.com / Luke Daniek Vista interior de um palácio em Florença, cidade cuja vida política na Renascença inspirou as obras de Maquiavel
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Maquiavel foi destituído do cargo, da cidadania e levado à falência. Alguns meses depois, seu nome foi envolvido em um complô político e ele foi preso e torturado. Após dois meses de prisão e tortura foi solto e teve de viver exilado em sua pequena propriedade rural. Mas ele ainda tinha um plano. Suas habilidades e sua ciência política se fossem expostas ao homem certo o fariam novamente ser valorizado e respeitado. Entre a primavera e o outono de 1513, num inspirado ardor, ele escreveu “O Príncipe”. O livro destina-se a um governante e o aconselha sobre como manter seu governo da forma mais eficiente possível. Sua obra mostrava como funciona a ciência política. Discorre sobre os diferentes tipos de Estado e ensina como um príncipe pode conquistar e manter o domínio sobre um Estado. Em uma passagem, Maquiavel aconselha que, quando um conquistador toma um Estado, ele deve infligir todos os danos que considera necessários de uma vez e não fazê-lo aos poucos, para poder tranquilizar o povo e ganhar seu apoio.
Na segunda metade do livro, Maquiavel trata daquilo que é o seu objetivo principal: as virtudes que o governante deve adquirir e os vícios que deve evitar para manter-se no poder. Em um trecho, cita que um líder deve inspirar ao mesmo tempo amor e ódio, mas por conta da dificuldade de se manter as duas coisas, é preferível do ponto de vista da arte de governar (e mais seguro) ser temido do que amado. Maquiavel desenvolveu seus pensamentos num período turbulento e amoral da história italiana e com uma visão pessimista da natureza humana. Maquiavel mostrou em “O Príncipe” que a moralidade e a ciência política são separadas. Ele apontou a contradição entre governar um Estado e ao mesmo tempo levar uma vida moral.
Maquiavel não conseguiu realizar seu plano de levar o livro ao governante do momento em Florença. As constantes mudanças políticas e as crises na cidade não lhe deram mais uma grande chance política em um alto posto, apesar de ter exercido algumas funções públicas antes de morrer aos 58 anos de idade, doente, em uma precária situação financeira e mais uma vez em desgraça política por ter apoiado o lado errado na instável política florentina.