Como funcionam os Manuscritos do Mar Morto

Autor: 
Sílvio Anaz

Uma das mais importantes descobertas da arqueologia ocorreu por acaso graças a um garoto beduíno que foi atrás de uma cabra desgarrada do rebanho. Isso aconteceu em 1947 num local onde teria existido uma tal de Cidade do Sal, segundo a Bíblia. Até então, após cinco décadas de explorações, os arqueólogos não tinham encontrado nada naquela região, a não ser evidências de que ali havia sido um forte do Império Romano. Mas aquele pedaço da antiga Palestina, próximo ao Mar Morto e atualmente localizado no Estado de Israel, escondia um tesouro arqueológico que ninguém imaginava.

Região de Qumran, no deserto da Judéia
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Região de Qumran, no deserto da Judéia,
onde foram encontrados os Manuscritos do Mar Morto

Em onze das duas centenas de cavernas da região foram encontrados cerca de 15 mil fragmentos de aproximadamente 900 manuscritos, a maior parte deles hebreus. Entre eles havia textos bíblicos, como os livros do Antigo Testamento, narrativas até então desconhecidas sobre Noé e Abraão e relatos sobre a história e a cultura da Palestina no período que vai do século 3 antes de Cristo ao século 1 depois de Cristo. Os Manuscritos do Mar Morto, como foram chamados, trouxeram importantes informações sobre o Judaísmo, os primeiros anos do Cristianismo e a relação entre essas duas religiões.

Para se ter uma ideia da importância da descoberta dos pergaminhos, até o momento em que ela ocorreu, os mais antigos exemplares do Antigo Testamento eram da Idade Média. A invasão de Jerusalém pelo exército romano e a destruição do segundo Templo no ano de 70 depois de Cristo não poupou nenhum documento sobre o Judaísmo. Em relação ao Novo Testamento, a versão mais antiga que se conhecia era um trecho do Evangelho de São João, escrito em grego no ano de 125 depois de Cristo. Entre os pergaminhos descobertos na região do Mar Morto havia um fragmento do Antigo Testamento, mais especificamente do Livro de Samuel, cuja datação feita pelos cientistas indicou que ele foi escrito no ano de 225 antes de Cristo - portanto, treze séculos antes da mais antiga versão do Antigo Testamento então conhecida. Além disso, entre o material encontrado nos pergaminhos, havia textos contemporâneos à época em que Jesus Cristo teria vivido.

A descoberta dos pergaminhos do Mar Morto, como não poderia deixar de ser, alimentou a imaginação de várias pessoas sobre eventuais segredos religiosos que eles desvendariam. Um dos motivos para isso é que boa parte dos manuscritos trazem revelações sobre os essênios, uma misteriosa seita judaica sobre a qual se sabia muito pouco até a descoberta dos pergaminhos e que pode ter exercido grande influência sobre o Cristianismo. Essa e outras revelações transformaram os Manuscritos do Mar Morto em um dos mais cobiçados tesouros arqueológicos dos tempos modernos. Na próxima página, descubra como essas relíquias foram encontradas.

Misteriosos essênios

Os essênios eram membros de uma seita que seguia as leis de Moisés, como o sabá e o ritual da purificação, mas sua doutrina tinha muitas semelhanças com o que viria a ser o Cristianismo. Estima-se que a ordem religiosa dos essênios reuniu cerca de quatro mil membros enquanto existiu, provavelmente entre o século 2 antes de Cristo e o século 1 depois de Cristo. A ordem não admitia mulheres e vivia sob um regime monástico. Seus integrantes trajavam hábitos brancos, conheciam astrologia, estudavam os efeitos de ervas medicinais e eram celibatários. Até a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto não se tinha certeza de sua existência, afinal eles não eram mencionados nem no Antigo nem no Novo Testamento. Mas com os pergaminhos encontrados nas cavernas próximas às ruínas de Qumran foi possível descobrir que os essênios não só existiram de fato, como também formaram uma comunidade naquela região. Eles acreditavam na imortalidade, na punição divina para quem pecasse e na vinda de um messias, negavam a ressurreição do corpo, não eram adeptos da veneração em templos e não participavam da vida pública. Os essênios surgiram provavelmente como uma seita para lutar contra o domínio grego de Jerusalém ocorrido no século 2 antes de Cristo e eles se autodenominavam como Filhos da Luz, Guardiões do Testamento e Filhos de Sadoc (sacerdote do primeiro Templo de Jerusalém). Nos tempos da dominação da Palestina pelo Império Romano, tudo indica que os essênios participaram das lutas contra os romanos. Fanáticos religiosos, eles eram radicais e, segundo o que revelaram os Manuscritos do Mar Morto, pregavam coisas muito similares ao que o Cristianismo prega. No entanto, ainda restam muitos mistérios a respeito dos essênios inclusive sobre o real nome da seita, já que "essênio" foi uma denominação dada a eles por Plínio, o Velho, historiador e oficial do Império Romano. Nos Manuscritos esse termo não aparece e em alguns dos vasos onde foram encontrados os pergaminhos aparece a palavra hebraica "yahad", que ao que tudo indica era como a comunidade dos "essênios" se auto-intitulava.

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