Português e muito mais

Apesar da maioria dos brasileiros ter a impressão de viver em um país onde só se fala o português, o Brasil é na verdade um mosaico de idiomas: nele são aprendidas como línguas maternas cerca de 200 línguas. Alguns completamente exógenas como, por exemplo, algumas línguas européias (dialetos alemães ou ucranianos falados por comunidades no sul do país). A maioria dessas outras línguas, no entanto, são indígenas.

O português é extremamente majoritário, enquanto que as demais línguas são minoritárias. As pessoas que têm línguas maternas minoritárias no Brasil constituem apenas 0,5% da população total do país, cerca de 750 mil indivíduos, de acordo com censo de 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Vamos, então, às línguas indígenas.

As 180 línguas indígenas



Segundo o Instituto Socioambiental (ISA), existem hoje no Brasil 225 etnias indígenas, que falam 180 línguas. O número de línguas indígenas ainda faladas é um pouco menor do que o de etnias, porque mais de vinte desses povos agora falam só o português, alguns passaram a falar a língua de um povo indígena vizinho e dois, no Amapá, falam o crioulo francês da Guiana. A distribuição é desigual, algumas dessas línguas são faladas por cerca de 20 mil pessoas e outras o são por menos de 20.

A pesquisadora de línguas indígenas e coordenadora de Ciências Humanas do Museu Emílio Goeldi, do Pará, Ana Vilacy, revela que os troncos com maior número de línguas e de falantes são o macro-tupi e o macro-jê. Existem também povos que falam o português, mas estes casos são considerados como perdas lingüísticas.

Ana Vilacy também afirma haver grande diversidade entre as línguas indígenas do Brasil, com muitos troncos e diferentes línguas em cada um deles. Existem línguas com fonemas abundantes e outras com um número extremamente reduzido de vogais e consoantes. Há também as línguas tonais, nas quais as palavras têm sílabas de tom mais alto e de tom mais baixo, como o chinês e o banto. E existem línguas que, como a maioria das européias, só usam o tom para caracterizar tipos de sentenças. Há até os índios que usam o assovio como fonema.

Do ponto de vista genético, que permite classificar as línguas em conjuntos com origem comum mais próxima ou mais remota, as 180 línguas indígenas brasileiras se distribuem por pouco mais de 40 conjuntos, a que se costuma dar o nome de famílias lingüísticas

O número de línguas nas famílias varia de duas a trinta. As línguas da família Tupi-Guarani no Brasil são as que têm o maior número de falantes e estão distribuídas sobre todo nosso território. Ocorrem do Amapá e norte do Pará até o Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, com umas no litoral atlântico e outras em Rondônia, assim como nos principais afluentes ao sul do rio Amazonas, no Madeira, no Tapajós, no Xingu e também no Tocantins e Araguaia.

Outras grandes famílias são a Jê, que tem línguas distribuídas desde o Maranhão até o Rio Grande do Sul, a Aruak no oeste e no leste da Amazônia, em Mato Grosso e em Mato Grosso do Sul, e a Karib ao norte do rio Amazonas, nos estados do Amazonas, Roraima, Pará e Amapá, mas com algumas línguas ao sul daquele rio, ao longo de seu afluente Xingu, nos estados do Pará e Mato Grosso.

As 10 línguas indígenas mais faladas do Brasil
Língua Número de estudantes
1. Tikuna 18.591
2. Guarani Kaiowá 11.102
3. Guajajara (Tenetehára) 9.261
4. Makuxí 7.511
5. Nhengatú (Língua Geral Amazônica) 5.990
6. Terena 5.011
7. Akwén Xavante 4.689
8. Kaingang do Paraná 4.641
9. Mundurukú 3.455
10. Wapixána 3.170
Fonte: Censo Escolar do MEC 2005