Leibniz e o início da filosofia alemã

Na época da juventude de Leibniz, a filosofia de Descartes estava em voga como a grande revolução no pensamento, já que ela rompera com a escolástica – sistema filosófico estagnado, que tinha em São Tomás de Aquino um de seus expoentes e que vigorou durante a Idade Média. Mas Leibniz encontrou uma falha na visão mecanicista do mundo de Descartes, desenvolvida em sua geometria das coordenadas cartesianas.

A partir do pensamento do filósofo francês se deduz que o espaço deva ser completamente uniforme, como um vazio absoluto, onde os objetos estão ou em repouso absoluto ou em movimento. Mas nessa uniformidade sem características seria impossível calcular as coordenadas de um objeto. Se as coordenadas são imaginárias, elas são arbitrariamente impostas ao espaço por nós. Assim, só poderíamos determinar se algo está móvel ou imóvel a partir de alguma referência. Isto é, eles estariam imóveis com referência a que? Ao desenvolver esse mesmo argumento em relação ao tempo, ele chegou às mesmas conclusões. Segundo Leibniz não havia nem espaço nem tempo absolutos. A ideia de que uma coisa é mais rápida que outra ou que surge antes ou depois de outra dependeria do ponto de vista relativista de quem as observa. Segundo ele, tempo e espaço simplesmente não existem. Leibniz desenvolveu uma ideia que antecipava um dos fundamentos da futura teoria da relatividade de Einstein.

Além de suas ideias matemáticas e filosóficas, Leibniz atuou em outras frentes. Desenhou projetos de um barco a motor de ar comprimido e de uma nave espacial, entre outros. Mas em 1673, o arcebispo e príncipe de Mainz, para quem trabalhava, morreu. Para conseguir sobreviver, aceitou um posto em Hanôver. No caminho passou por Londres e também por Haia, onde se apoderou de algumas ideias de Spinoza. Seu cargo em Hanôver foi o de bibliotecário e entre suas missões estava pesquisar a genealogia do duque e escrever a história da família do nobre.

Mas Leibniz tinha outras pretensões. E preocupou-se mais em trabalhar no ambicioso projeto de escrever sua filosofia. Ele defendeu a ideia de que o mundo é constituído por uma infinidade de substâncias. Essas substâncias são chamadas de mônadas e são a base de todas as coisas, inclusive Deus. Elas não seriam materiais, mas sim pontos metafísicos. Como são metafísicos não estão sujeitos às leis de causa e efeito. Sua interação é na verdade o resultado de uma harmonia preestabelecida por Deus. Enquanto desenvolvia sua filosofia, Leibniz se oferecia para cargos em várias cortes européias, apesar de ainda ser o bibliotecário de Hanôver com muitos trabalhos pendentes por lá.  Entre os cargos que pleiteou e conseguiu estão o da presidência da Academia Alemã de Ciências, após convencer a princesa Sofia Charlote a criá-la, e o de conselheiro de Pedro, o Grande, czar da Rússia. Leibniz chegou a estar empregado simultaneamente em cinco cortes européias.

Após o príncipe de Hanôver ir para a Inglaterra com a perspectiva de se tornar o futuro rei inglês, Leibniz voltou para descobrir que seu patrão tinha deixado ordens explícitas antes de partir: o filósofo não poderia mais deixar o estado alemão e viveria numa espécie de prisão virtual palaciana. No outono de 1716, ele começou a sofrer de gota e em 14 de novembro de 1716, Leibniz faleceu. Seu fiel secretário foi o único a comparecer ao seu enterro. Segundo ele, Leibniz era distraído e estranho, mas foi um homem que não falou mal de ninguém.