Kierkegaard: os tipos de verdades
Em “Temor e tremor”, sua segunda obra, também escrita sob pseudônimo, Kierkegaard mostra o resultado da síntese, num processo dialético, do ético e do estético. Essa síntese dialética dos dois opostos resulta na religião. O religioso, segundo Kierkegaard, combina a vida interior e a exterior, a certeza e a incerteza. O filósofo tinha então 30 anos e dedicava sua vida inteiramente a escrever. Vivendo solitariamente, não via mais os antigos amigos e fazia longas caminhadas pelas ruas de Copenhague. Aos domingos ia à Igreja e lá via Regine, mas não se falavam.
Entre 1844 e 1846, ele escreveu meia dúzia de livros com vários pseudônimos. Em suas ideias mostrou que a existência era um “irracional” (em matemática, quantidade que não pode ser expressa em números ordinários). Para ele, a existência era o que restava depois que tudo o mais era analisado. Ela estava simplesmente “aí”. Mas ela é também mais do que isso. Ela precisa ser vivida. Tem que ser transformada em ação por meio do pensamento subjetivo.
Kierkegaard nos diz que há dois tipos de verdade: a objetiva, que está ligada ao mundo exterior, como a história e a ciência, e a subjetiva, que está fundamentalmente ligada à nossa existência, ao irracional, que diz respeito ao próprio fundamento dos nossos valores. Para ele, as verdades subjetivas são as mais importantes. Kierkegaard buscava tornar a existência a mais intensa possível. Entre os livros que escreveu no período estavam “O conceito de angústia” e “Migalhas filosóficas”, na qual usa pela primeira vez o termo “
existencialista”.
Suas obras receberam críticas favoráveis na revista Corsair, famosa pelos ataques a personalidades locais. Kierkegaard resolveu então ganhar notoriedade e escreveu para a Corsair uma carta maldosa contra a revista. Nos meses seguintes, ele se tornou, como previra, alvo da publicação. Mas, além da notoriedade, ele queria também chamar a atenção de Regine. Apesar de ter virado alvo de chacota pública, ele não conseguiu cativar a amada. Ela acabou noiva de outro homem, com quem se casaria.
Nos anos seguintes, Kierkegaard desenvolveu uma visão religiosa que influenciou suas obras a partir de então. Ele também desenvolveu uma devastadora crítica contra
Hegel e na obra “Enfermidade mortal” analisou o desespero, que entendeu como o fracasso da vontade de ser o que se realmente é. Com mais de 40 anos e já com os recursos que herdara no fim, decidiu atacar a Igreja da Dinamarca e lançou a revista “O Momento”. Sua campanha contra a Igreja lhe trouxe nova notoriedade, mas também um estresse que comprometeu sua saúde. Teve um colapso que o obrigou a usar suas últimas reservas de dinheiro. Regine, sua amada, havia partido sete meses antes para ilhas caribenhas com o marido que fora nomeado governador das então Índias Ocidentais dinamarquesas. Fraco e sem vontade de viver, Kierkegaard morreu em 11 de novembro de 1855 e deixou em testamento os poucos bens que lhe restavam para Regine. Seu enterro atraiu inesperadamente uma multidão com estudantes competindo para carregar seu caixão.