Kierkegaard e as sementes do existencialismo
Filho de um homem que havia amaldiçoado a Deus, Soren Aabye Kierkegaard nasceu em 5 de maio de 1813, em Copenhague, na Dinamarca. Seu pai fora um servo na região da Jutlândia. Propriedade de um sacerdote local, ele passava os dias pastoreando ovelhas em condições de total desamparo e solidão. Certo dia levado ao desespero subiu numa encosta para solenemente amaldiçoar a Deus por seus infortúnios. Desde então, ele virou um negociante bem-sucedido, com a ajuda de um tio, e construiu uma pequena fortuna. Mas a maldição parece ter cobrado seu preço: dos sete filhos que teve só dois sobreviveram e as mulheres que desposou também morreram.
Quando Soren nasceu, seu pai já tinha 56 anos. A infância do futuro filósofo foi marcada pelas perdas e pela opressão e depressão do pai. A tirania paterna se estendia à educação do jovem Kierkegaard e o resultado foi que ele desenvolveu uma mente extremamente lógica e uma poderosa imaginação. Na escola, Kierkegaard parecia um "velhinho”, com suas roupas antiquadas e suas esquisitices comportamentais. À medida que crescia era alvo das zombarias dos colegas, mas aprendeu a defender-se com um sarcasmo agressivo.
Após finalizar a escola, Kierkegaard foi estudar teologia na Universidade de Copenhague. Mas logo ele mudou seu foco de interesse e concentrou-se em
filosofia, principalmente em função da visão austera e espiritualizada do mundo de
Hegel, cujo pretensioso e abrangente sistema filosófico àquela altura estava na moda. Nessa época, o relacionamento com seu pai sofreu uma profunda mudança. Desejoso de se libertar da tirania paterna, ele passou a beber em cafés de modo desordeiro e até visitou um bordel onde ao que tudo indica viveu sua única experiência sexual na vida – que parece ter sido um fiasco.
Em 1838, o pai de Kierkegaard morreu e lhe deixou uma considerável fortuna. Livre da coerção paterna e com uma situação financeira pra lá de confortável, o que significava que não precisaria trabalhar pelos próximos dez ou vinte anos segundo seus cálculos, ele passou a estudar prá valer. Nesse período conheceu a adolescente Regine Olsen, por quem se apaixonou. Após Kierkegaard ser aprovado nos exames universitários e começar sua formação para virar pastor, eles ficaram noivos. Mas, logo a seguir, inexplicavelmente ele rompeu o noivado e partiu para Berlim.
Após um ano, ele retornou a Copenhague e lançou, sob pseudônimos, sua primeira obra: “Ou isso ou aquilo: um fragmento da vida”. Nela está o “Diário de um sedutor”, texto no qual mostra o seu relacionamento com Regine. Na verdade, Kierkegaard gostaria que ela soubesse toda a agonia profunda que ele sofrera (ao mesmo tempo em que se escondeu sob pseudônimos, ele tentou deixar óbvio que eram pseudônimos).
Em “Ou isso ou aquilo: um fragmento da vida”, Kierkegaard sugere que há duas maneiras de viver a vida: a ética e a estética. Quem opta pelo ponto de vista estético vive basicamente para si mesmo e para o seu próprio prazer (o que não significa que seja uma atitude superficial em relação à vida). Já quem opta pela vida ética cria a si mesmo e a autocriação se torna o objetivo da sua existência. Onde o indivíduo estético aceita-se tal como é, o ético procura conhecer e mudar a si mesmo por conta própria. Com essas ideias, Kierkegaard lançava os fundamentos de sua filosofia
existencialista.