Kant e a crítica da razão pura
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A rotina de Kant tornou-se lendária em sua cidade. Seus hábitos se repetiam com uma exatidão surpreendente. Todos os cidadãos sabiam que o relógio marcava três e meia quando Kant saía para seu passeio vespertino pelas ruas de Königsberg, em qualquer condição atmosférica. O único dia em que falhou nesse hábito foi quando começou a ler “Émile”, de Rousseau. A obra o absorveu tanto que ele perdeu seu passeio vespertino. Àquela altura de sua vida, quando estava na casa dos 40 anos, ele tinha também considerado se casar duas vezes, mas demorou tanto para responder às pretendentes que elas desistiram.
Nessa vida sem pressa e de extrema regularidade Kant desenvolveu suas ideias filosóficas. Em 1781, ele publicou “Crítica da Razão Pura”, livro que inicia a obra-prima do filósofo. O estilo prolixo e difícil da escrita de Kant, além do fato dele ter retirado argumentos interessantes e exemplos concretos para reduzir o tamanho do livro, fazem desse texto um dos mais complexos de ser entendido. Na “Crítica da Razão Pura”, Kant pretendia uma restauração da metafísica em oposição ao avanço do empirismo. Apesar de concordar com os empiristas que não existiam ideias inatas, ele discordava que todo conhecimento somente se originava das experiências. Para Kant era o contrário: toda experiência deve corresponder ao conhecimento.
Kant chamou de “razão pura” aquilo que se pode saber antes da experiência. Enquanto o empirismo negava esse conhecimento que transcende a experiência, a metafísica kantiana mostrava que há elementos subjetivos, como espaço e tempo, que ele chamou de categorias, que concebemos por meio de nosso entendimento, operando independentemente da experiência. Essas categorias seriam os óculos irremovíveis que usamos para ver o mundo. Mas com eles só conseguimos perceber os fenômenos do mundo, nunca a realidade mesma que sustenta ou origina o aparecimento desses fenômenos.
Kant e a noção de tempo O tempo não possui realidade objetiva; não é um acidente, nem uma substância, e nem uma relação: é uma condição puramente subjetiva, necessária por conta da natureza do espírito humano, que coordena todas as nossas sensibilidades mediante determinada lei, e é pura intuição. Coordenamos da mesma forma substâncias e acidentes, segundo a simultaneidade e a sequência, através apenas do conceito de tempo.
De Mundi Sensibilis atque intelligibilis forma et principus, 3, 14.
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A “Crítica da Razão Prática” dedicada à ética foi publicada por Kant sete anos após ele lançar a primeira parte de sua grande obra filosófica. Nesta segunda parte, ele busca as bases metafísicas para a moralidade. A terceira e última parte seria publicada em 1790, quando Kant tinha 58 anos de idade. A “Crítica do Juízo” trata de teologia, mas principalmente do juízo estético. Nela o filósofo também busca, à semelhança das partes anteriores, estabelecer uma base metafísica só que desta vez para sua teoria do juízo estético. O objetivo dele era desenvolver um princípio
a priori que tornasse possível nossa apreensão da beleza. Kant argumentava que quando alguém descreve algo como belo acredita que todos deveriam dar a mesma avaliação para o mesmo objeto. Kant tenta nessa obra uma conciliação entre o juízo puro e o juízo prático, enquanto busca estudar juízos estéticos universais. As três partes da obra-prima de Kant foram publicadas numa época em que a Prússia Oriental vivia um momento de tolerância política sob o reinado de Frederico, o Grande.
À medida que envelhecia, Kant tornava-se cada vez mais solitário, misantropo e hipocondríaco. Em de outubro de 1803, ele adoeceu pela primeira vez. Teve um derrame que deteriorou sua saúde nos quatro meses seguintes até sua morte em 12 de fevereiro de 1804.