Roteiro de uma malhação do Judas tradicional

Autor: 
Sílvio Anaz

A malhação do Judas tradicional acontece sempre ao meio-dia do sábado de Aleluia, que fica entre a Sexta-Feira Santa e o domingo de Páscoa. Na verdade, a brincadeira começa na noite anterior quando o boneco do Judas é “enforcado” em algum poste ou árvore da rua.

Assim, a primeira coisa a fazer é a confecção do boneco. O material básico para se ter um Judas é uma calça, dois pares de meias (ou um par de meias e um de luvas) e uma camisa de mangas compridas masculinas e um saco de pano, que servirá como a cabeça do Judas. Além disso, é necessário serragem, palha, retalhos de pano, papel e/ou guloseimas para rechear o boneco. A confecção do Judas deve ser feita costurando-se uma peça na outra: a camisa nas calças, as calças nas meias e as mangas das camisas nas luvas (ou meias). Após, deve-se rechear as roupas costuradas para que o boneco fique parecido com uma pessoa. Por último, recheia-se o saco de pano que é costurado na gola da camisa, formando a cabeça do boneco.

Depois de pronto, pode-se caracterizá-lo como uma personalidade ou um problema local, nacional ou internacional e identificá-lo com uma placa pendurada no pescoço, mostrando quem ou o que o Judas representa. A escolha de quem o boneco vai simbolizar pode ser feita por consulta ou eleição na comunidade. O boneco é então pendurado na noite da sexta-feira em algum poste ou árvore da rua, bem longe da fiação elétrica, para simular o enforcamento do Judas.

A tradição pede que à medida que as crianças acordem no sábado, elas devem se reunir no local onde está o boneco. Ao meio-dia, alguém desce o Judas do poste e retira do bolso dele o “testamento”. De preferência escrito em versos, ele deve de forma bem humorada estabelecer a relação entre o Judas e o personagem retratado além de comentar, de forma satírica, outros fatos locais que aconteceram desde a última malhação. Após a leitura do testamento, amarra-se uma corda no pescoço ou por baixo dos “braços” do boneco e grita-se: “Vamos malhar o Judas” – e alguém sai correndo puxando o boneco. A partir daí, a turma está liberada para com cabos de vassouras e outros pedaços de pau bater no boneco até ele se despedaçar. A seguir coloca-se fogo no que restou do Judas.