Introdução
A internacionalização da Amazônia é um fantasma que vira e mexe volta à mídia. Muitas vezes por palavras de militares das Forças Armadas que têm entre suas preocupações tradicionais as questões de soberania nacional. Outras por declarações como as do então presidente da França, François Mitterrand, que, em 1991, disse que "o Brasil precisa aceitar a soberania relativa sobre a Amazônia". Outras vezes por deputados ou outras instituições que reclamam da presença de organizações não-governamentais internacionais na região.
Na internet, são freqüentes os boatos da existência de um livro didático de geografia norte-americano que
separaria a região do resto do Brasil. O livro, na verdade, é uma
farsa. Há também um interessante discurso sobre o tema do senador Cristovam Buarque, que inclusive está publicado no seu
blog, que volta e meia invade as caixas postais dos internautas. Enfim, a internacionalização parece mais uma dessas
teorias da conspiração.
Historicamente, a Amazônia, no entanto, foi uma das partes mais separadas econômica, social e politicamente do resto do Brasil. Seja no Brasil Colônia, seja nos tempos contemporâneos. Só para entender o imbróglio, duas histórias dos interesses internacionais ou do desinteresse nacional com a região.
A correspondência do embaixador inglês no Brasil no início da independência brasileira (1822) mostra que o então regente Feijó pediu
ajuda militar inglesa e francesa, através dos seus embaixadores,
para acabar como a Cabanagem, revolta separatista ocorrida na região. Já nos tempos de Dom Pedro 2º, o chefe do Observatório Naval de Washington defendeu a tese da
livre navegação internacional do rio Amazonas, por causa do seu volume de água “oceânico”.
Desabitada e desconhecida, a região acabou sendo explorada pelo governo brasileiro de maneira mais efetiva apenas no século passado quando
Marechal Rondon, pai da política indigenista brasileira, começou a instalar os telégrafos na parte mais desabitada do país. Depois outros militares, principalmente durante a ditadura militar (1964-1984), decidiram “povoar” a região em nome da soberania nacional, criando as
rodovias transamazônica e Belém-Brasília. Em 1985, durante a transição democrática, foi criado o
Projeto Calha Norte, uma forma de ampliar a segurança na face norte do rio Amazonas a mais desabitada do país e a mais vulnerável.
Ao mesmo tempo, principalmente, nas últimas décadas do século 20 e no século atual, o interesse mundial pela região começou a crescer de uma maneira muito maior que, por exemplo, nos tempos do ciclo da borracha. Afinal, o mundo se deu conta dos perigos da devastação desenfreada da natureza que provoca fenômenos como o
aquecimento global e a maior
floresta tropical do mundo começou a ter mais importância. A
biodiversidade, ainda hoje, em grande parte, desconhecida da região, é alvo dos olhos de cientistas e biopiratas. E as empresas de capital internacional investem principalmente no setor de extração atrás das riquezas da região.
Bom, por essas e por outras, a região é de interesse mundial. Mas e a internacionalização da região é realmente um perigo.
| A pan-amazôniaÉ bom lembrar para que a tal região amazônica não é uma exclusividade brasileira. O Brasil tem a maior parte (cerca de 80%) dos 7 milhões de quilômetros quadrados. O restante fica com a Venezuela, Suriname, Guiana, Guiana Francesa, Equador e Colômbia, formando a pan-amazônia. |