Heidegger e a questão existencial

Descendente de uma família de pequenos fazendeiros e artesãos, Martin Heidegger nasceu em 26 de setembro de 1889, em Messkirch, na Alemanha. Seu pai era mestre tanoeiro e sacristão da igreja local. Seu interesse precoce pela religião e o fato de, após os estudos, ter se tornado um noviço jesuíta mostravam que ele estava destinado a ingressar no sacerdócio. Mas, logo após chegar à Universidade de Freiburg com uma bolsa de estudo eclesiástica, ele descobriu seu interesse pela filosofia. Seus tempos por lá foram tranquilos, sem registros de confusões típicas dos universitários.

Aos 26 anos de idade, Heidegger começou a lecionar na universidade em que estudou. Um ano depois, ele se casaria com Elfride Petri, uma estudante de economia de espírito independente. Nessa época, o famoso filósofo Husserl assumiu como professor em Freiburg e Heidegger passou a ser seu assistente. A fenomenologia de Husserl serviu como a base do pensamento filosófico que Heidegger passaria a desenvolver. Só que com algumas modificações essenciais.

Após o final da Primeira Guerra Mundial, vendo o desalento geral ao seu redor, Heidegger se distanciou da fenomenologia concebida por Husserl e também perdeu a fé em Deus. Buscar o “ser absoluto” deixou de ser a meta de Heidegger. Ele passou a ter como foco de sua filosofia o estudo do próprio “ser”. Ao se voltar para a história da filosofia, ele percebeu que os gregos pré-socráticos tinham refletido profundamente sobre a questão do “ser”. Mas, com Sócrates, Platão e Aristóteles isso se perdera. Heidegger queria resgatar essa reflexão.

Em 1923, ele foi nomeado para ser professor adjunto de filosofia na Universidade de Marburg. No ano seguinte, enquanto dava suas aulas vestindo um típico traje do sul da Alemanha, o que incluía calções presos à altura do joelho, ele notou uma jovem atraente na classe. A judia Hannah Arendt, de 18 anos, estabeleceria longas discussões filosóficas com Heidegger e, além do interesse intelectual, logo veio também a atração emocional. Os dois se tornaram amantes e, pela primeira vez, Heidegger experimentava uma paixão de verdade. O relacionamento intenso e secreto dos dois durou um ano até quando Heidegger, esgotado pela situação, pediu a ela que mudasse de universidade. Apesar disso, eles continuaram a manter encontros esporadicamente.

Três anos após conhecer Hannah, Heidegger publicou sua obra-prima filosófica: “Ser e Tempo”. Sua proposta era que todo indivíduo abordasse a questão do “ser” de modo mais intenso possível. E não importava tanto chegar à resposta, mas sim realizar essa jornada de reflexão. Segundo ele, essa era a missão essencial do pensamento. Em 1928, com a aposentadoria de Husserl, a cadeira de filosofia em Freiburg ficou vaga e ele a ocupou por indicação do próprio Husserl.