Como funciona a Guerra Santa

Autor: 
Sílvio Anaz

Guerrear em nome do Todo-Poderoso é algo que surgiu na Antiguidade junto com a crença em um deus único. Na Idade Média, quando o monoteísmo ficou definitivamente na moda, homens de diferentes fés mataram uns aos outros crentes de que estavam ganhando o caminho do céu ao livrar o mundo terreno de infiéis ou hereges. A "guerra santa" é o recurso extremista que as grandes religiões monoteístas têm usado ao longo da História para proteger o que consideram ameaça aos seus dogmas ou aos seus lugares sagrados. Mas ela tem sido também um recurso para estratégias geopolíticas e de expansionismo das civilizações. Na origem das principais "guerras santas" já travadas na História estão o Cristianismo e o Islamismo, as duas maiores religiões monoteístas do planeta.

Deus arma seu povo para lutar contra os inimigos
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Deus arma seu povo para lutar contra os inimigos

As raízes do conceito de "guerra santa" estão fincadas nos principais livros das duas religiões. No Antigo Testamento - que compõe a primeira parte da Bíblia cristã -, a ocupação da Canaã (região da Palestina) no século 6 antes de Cristo pelos judeus vindos do Egito sob liderança de Moisés, narrada no "Livro de Josué", mostra a conquista da Terra Prometida, com a expulsão dos seus ocupantes, e a divisão dela entre as tribos judaicas. A narrativa enfatiza que a luta pela conquista da Terra Prometida foi feita com a ajuda de Deus, o que a justificou totalmente.

Doze séculos depois da conquista de Canaã pelos judeus, Maomé, fundador do Islamismo, irá definir no Alcorão que um último recurso da "jihad" - obrigação religiosa de todo muçulmano na difusão do Islamismo - é se engajar fisicamente numa guerra contra todos os infiéis e inimigos da fé islâmica. Como para os muçulmanos o Alcorão representa a palavra de Deus (ou Alá, como eles chamam o Todo-Poderoso), lutar contra aqueles que não acreditam no Islã é uma guerra em nome de Deus. Assim como foram as Cruzadas, movimento militar-religioso ocorrido entre os séculos 11 e 13 no qual tropas dos reinos cristão europeus lutaram contra os árabes pelo controle da Terra Santa (região da Palestina) com o objetivo de manter os lugares sagrados do Cristianismo sob o domínio da civilização cristã ocidental.

Para seus defensores, as "guerras santas" são sempre por uma "boa causa", que pode estar justificada em textos sagrados ou em teses desenvolvidas por teólogos e pensadores religiosos, às vezes motivadas por necessidades políticas ou militares de manutenção, expansão ou luta pelo poder. Nos tempos modernos, principalmente no Ocidente cristão, o conceito de "guerra santa" é visto como uma abominação anacrônica, mas nem sempre foi assim. Por outro lado, em muitos países muçulmanos do Oriente Médio, a ideia de "guerra santa" ainda remete a um passado glorioso, a tempos em que o expansionismo árabe e do Islã os levou a ser um dos maiores impérios do mundo.

Um dos muitos fatores que podem explicar essa diferença está na gênese da ideia de guerra santa entre as duas grandes religiões monoteístas. O Cristianismo desenvolveu primeiro o conceito, mas não a partir do que Jesus teria pregado e sim com a "conversão" do Império Romano à crença cristã durante o reinado do imperador Constantino, no século 4, e devido a necessidade do Império defender-se das ameaças dos invasores bárbaros. No Islamismo, que surge dois séculos depois, o conceito de "guerra santa" está presente desde seus primeiros dias de existência, expresso nas palavras de Maomé, seu principal profeta, registradas no Alcorão.

Na próxima página saiba como se desenvolveu o conceito de "guerra santa" no Cristianismo e como ele culminou na aventura das Cruzadas.