Introdução

Um homem viaja num metrô na cidade de Nova Iorque usando uma camisa abotoada, terno, gravata e cuecas boxer. Ele está em pé e lê o jornal. Na próxima parada, entra uma mulher vestindo casaco, echarpe, suéter e calcinhas. Ela senta e liga o seu iPod. Algumas paradas depois, há umas doze pessoas sem calça na linha 6 do metrô, nenhuma das quais parece conhecer as outras. As reações da maioria das pessoas que lembraram de vestir as calças naquele dia variaram entre encarar seus joelhos e procurar com ar interrogativo; entre morrer de rir e fingir apostas com estranhos sobre quanta gente sem calça embarcaria na próxima estação. Na verdade, na próxima estação embarcou uma pessoa vendendo calças por US$ 1.

Foto cedida por Improv Everywhere
Crédito da foto da esquerda: agentes Dippold e Borden
Crédito da foto da direita: agentes Nicholson, Rainswept, Ries,
Winters, Chigirev e Altaffer

"Sem calças" 2003 (esquerda) e "Sem calças" 2006 (direita)

Precisa muito para surpreender as pessoas em Nova Iorque, a cidade onde o Naked Cowboy percorre regularmente a Times Square com suas cuecas apertadas tocando violão; a cidade onde uma empresa de roupas íntimas mandou homens e mulheres de cuecas para as ruas num truque publicitário. Mas as pessoas do Improv Eveywhere se esforçam bastante. A viagem de metrô dos sem calças é uma missão (uma performance) que os agentes (os atores) do grupo vêm realizando uma vez por ano desde 2002. Esta é apenas uma das muitas missões organizadas pelo Improv Everywhere, em geral com um planejamento incrivelmente meticuloso. O objetivo? De acordo com o fundador do grupo, Charlie Todd, é "criar momentos que sejam tão impressionantes que as pessoas tenham uma história para contar pelo resto da vida".

Quase todas as missões do Improv Everywhere acontecem as ruas e nos metrôs da cidade de Nova Iorque. Não é bem improvisação, é claro, porque as performances são planejadas com antecedência; mas muitos dos membros principais se juntaram ao grupo quando eram alunos do Teatro Upright Citizens Brigade, uma escola que ensina técnicas de improvisação longa e que se orgulha de muitos diplomados que tiveram passagens pelo programa Saturday Night Live. Os agentes usam muitas destas técnicas em suas performances. Quando a platéia é formada por inadvertidos usuários do metrô, turistas e pessoas da cidade que saíram para dar uma volta, é preciso estar preparado para quase todo tipo de reação e, de preferência, incorporá-las sem sobressalto à performance com resultados cômicos. Isso é improvisar.

Charlie Todd encontrou a idéia do Improv Everywhere depois de uma noitada com os amigos em 2001. Naquela noite, os amigos notaram que ele tinha uma leve semelhança com o músico Ben Folds e o Sr. Todd resolveu testar a observação fingindo ser o tal músico. O resultado foi sua primeira missão bem sucedida. Ele bebeu de graça a noite inteira, recebeu alguns convites de aparentes fãs de Ben Folds e foi escoltado até o salão VIP por seguranças que acabaram por expulsar os amigos de Todd quando ficou claro que eles tinham roubado a carteira de Ben Folds. E assim nasceu o Improv Everywhere: um palco para os sem palco; um roteiro para atores batalhadores que ainda precisam conquistar a Broadway; uma tentativa de fazer os nova-iorquinos tirarem seus fones de ouvido, o que não é tão fácil como pode parecer. De acordo com Charlie Todd em uma matéria publicada no Columbia News Service, "é incrível o que você tem de fazer para que as pessoas parem e prestem atenção".

Entrar no metrô sem calças é uma boa maneira de chamar a atenção das pessoas. O Improv Everywhere também organizou uma festa surpresa no metrô, em que os agentes estenderam faixas, distribuíram cartolinhas de festa aos usuários do metrô e fizeram todo mundo se abaixar e gritar "surpresa!" quando o agente "aniversariante" embarcou na estação seguinte. Todo mundo cantou "parabéns para você" e os agentes serviram bolinhos. O pedido de casamento no metrô foi organizado de modo parecido, só que os agentes fizeram os passageiros segurarem cartazes com os dizeres "casa comigo?" enquanto um deles pedia a mão de sua "namorada", outra agente, quando ela embarcou no metrô. Esta missão fez uma das passageiras lacrimejar. O metrô é um dos palcos favoritos do Improv Everywhere, mas não é o único. Algumas das melhores missões do grupo acontecem acima do chão. Há aquela em que um agente de smoking montava uma mesa de cortesias sofisticadas no banheiro de um McDonalds e oferecia toalhas de mão e colônia aos clientes depois que eles usavam o urinol.

Em outra missão, os agentes encenaram uma volta no tempo em uma Starbucks, repetindo as mesmas cinco ações bem visíveis, na mesma ordem, a cada cinco minutos durante uma hora.

  1. Dois agentes se comportando como namorados discutem em voz alta; a agente sai furiosa da Starbucks; o agente grita "Volte aqui! Katie!", enquanto corre atrás dela.


Foto cedida por Improv Everywhere
Crédito da foto: agente Winckler

"Volte aqui! Katie!"

  1. Um agente sentado em uma das mesas derrama seu café; ele corre pela Starbucks atrás de guardanapos.
  2. Em outra mesa, um agente recebe uma chamada no celular; o toque é "The Entertainer" e está alto; ele se aproxima da janela para melhorar o sinal.
  3. Um agente se dirige ao banheiro e tropeça em outro no caminho; pede desculpas; espera na fila do banheiro durante um minuto e volta ao seu lugar.
  4. Um agente entra na Starbucks com um rádio tocando "Shiny Happy People", do R.E.M.; ele anda pela loja e sai.
Em um chafariz de Washington Square Park, agentes bancando a equipe de nado sincronizado de Nova Iorque executam uma rotina para a música "Come Sail Away", de Styx, diante de espectadores maravilhados e de três agentes-juízes compenetrados. A equipe precisava de 28 pontos para ir às Olimpíadas de Atenas. Conseguiu na mosca.

Foto cedida por Improv Everywhere
Crédito da foto: agentes Fairey, Rainswept, McMurrary e Rose

Na próxima seção veremos mais de perto algumas das missões do Improv Everywhere, incluindo a "Best Buy", "a sinfonia de celulares" e "o melhor show de todos os tempos".