Empecilhos para a análise de caligrafia

Embora um especialista possa descobrir muitos casos de falsificação, uma imitação bem feita pode passar despercebida. Um caso de falsificação que os especialistas não perceberam foi o dos diários "perdidos" de Hitler (embora exista uma boa razão para isso).

Nos anos 80, um homem chamado Konrad Kujau, suposto colecionador de coisas do período nazista, entrou em contato com uma editora alemã e disse possuir 60 diários manuscritos por Adolf Hitler que, segundo Kujau, tinham acabado de ser encontrados nos destroços de um avião que havia saído da Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial. Como os textos pareciam ser autênticos e Kujau aparentemente tinha uma boa reputação, a editora pagou US$ 2,3 milhões pelo lote. Os diários foram imediatamente publicados em fascículos em um jornal alemão da mesma editora. Os direitos de publicação foram vendidos para vários jornais internacionais, incluindo The London Times. Foi o The Times que solicitou uma análise profissional de caligrafia para garantir a autenticidade.

Três especialistas internacionais em análise forense de caligrafia compararam os diários com amostras que eram consideradas de Hitler. Todos concordaram que os diários haviam sido escritos pela mesma pessoa que escreveu as amostras. Eles aparentemente eram autênticos.

Foi uma análise da tinta e do papel usados para escrever os diários que revelaram a falsificação. Uma análise com luz ultravioleta mostrou que o papel tinha um componente que só começou a ser usado em papéis no ano de 1954. Hitler morreu em 1945. Outros testes forenses com a tinta indicaram que ela havia sido aplicada no papel nos últimos 12 meses. No entanto, as análises de caligrafia estavam corretas. A pessoa que escreveu os diários também escreveu as amostras. A polícia descobriu que Kujau era um falsificador com experiência e que ele também havia falsificado as amostras utilizadas para fazer as comparações.

Esse é um caso extremo de fraude e falsificação profissional, pois os diários passaram por todos os estágios de análise e foram considerados autênticos. Embora esse nível de perícia seja raramente encontrado em falsificações, permanece o fato de que, se a investigação tivesse contado somente com a análise de caligrafia, os "diários de Hitler" agora fariam parte dos livros de história. Alguns outros problemas que afetam a exatidão da análise de caligrafia são:

  • não é possível fazer uma comparação significativa entre letras maiúsculas e minúsculas;
  • drogas, exaustão ou doença alteram a caligrafia de uma pessoa;
  • a qualidade das amostras determina a qualidade de uma análise comparativa, e é difícil conseguir boas amostras.
No caso do professor norte-americano John Mark Karr, que confessou em agosto de 2006 o assassinato, em 1996, de JonBenet Ramsey, uma menina de apenas seis anos de idade, na cidade de Colorado, o bilhete de resgate encontrado na casa de Ramsey era longo o suficiente para ser usado como um documento questionado, mas encontrar boas amostras foi um problema. Em uma série de análises de caligrafia preliminares, o especialista em documentos John Hargett, antigo chefe de análises de documentos do Serviço Secreto dos EUA, comparou o bilhete de resgate com duas amostras: uma inscrição de Karr em um anuário do colegial e uma carta de apresentação que Karr preencheu na Tailândia. Hargett não encontrou combinações, apesar de os resultados serem inconclusivos porque a dedicatória no anuário foi escrita com uma caligrafia artística há mais de 20 anos e a carta de apresentação foi toda preenchida com letra maiúscula, ao passo que o bilhete de resgate foi escrito com letras maiúsculas e minúsculas. O teste de DNA posterior fez com que não houvesse mais necessidade de outras análises, já que o DNA de Karr não era compatível com o encontrado no corpo de JonBenet.

Com certeza, o empecilho mais significativo para a análise de caligrafia como uma ciência é o fato de que ela é essencialmente subjetiva. Isso quer dizer que sua aceitação na comunidade científica e como prova no tribunal ainda não foi comprovada. Apenas recentemente a análise de caligrafia começou a ser mais aceita como um processo científico produtivo e profissional, já que o treinamento dos analistas está mais padronizado e com normas de certificação. Os resultados de uma comparação de caligrafia nem sempre são aceitos como provas em um tribunal, em parte porque a ciência tem alguns problemas para resolver, como determinar uma margem de erro confiável em análises e estabelecer padrões para o processo. O uso de sistemas computadorizados para fazer as análises de caligrafia permite que os examinadores passem os manuscritos por scanners e digitalizem o processo de comparação. Isso pode acelerar a aceitação geral da análise de caligrafia como uma ciência e uma prova no tribunal.

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