Analisando uma amostra

A análise de caligrafia é um processo longo e cuidadoso, que requer muito tempo e, de preferência, muitos exemplos ou amostras para comparação: os documentos com autoria conhecida. Não se trata de apenas observar dois documentos e dizer: "Olha, os dois têm um 'B' um pouco abaixo da linha, é o mesmo autor". No caso do seqüestro de Lindbergh, em 1932, a polícia tinha alguns documentos questionados. Ao todo, o seqüestrador enviou 14 bilhetes para Lindbergh com instruções para o resgate. Os analistas de caligrafia não tiveram problemas para determinar que todos os bilhetes de resgate foram escritos pela mesma pessoa. Mas as amostras anteriores do principal suspeito, Richard Bruno Hauptmann, eram insuficientes, e a polícia precisou usar um mandado para conseguir outras na delegacia. Com essas amostras solicitadas, os analistas determinaram a combinação.

resultados parciais da análise de caligrafia no caso do seqüestro de Lindbergh
Foto cedida pelo FBI
Resultados parciais da análise de caligrafia no caso do seqüestro de Lindbergh

No entanto, os meios que os policiais utilizaram para conseguir essas amostras foram questionados. Hauptmann foi forçado a escrever por horas a fio até quase desmaiar de exaustão. Também disseram como ele deveria escrever e mostraram um bilhete de resgate, que deveria ser copiado da melhor maneira possível. Essas são apenas algumas das coisas inaceitáveis que aconteceram. Isso significa que a veracidade da combinação de caligrafia determinada é questionável, mas a execução de Hauptmann torna impossível refazer o teste. Atualmente, existem regras bastante rígidas sobre como um policial deve obter uma amostra solicitada.

Possuir várias amostras boas e sem falsificações faz com que a análise de caligrafia seja bem mais confiável do que a simples comparação de dois documentos. Apesar de a caligrafia de cada um ser única, ninguém escreve exatamente igual duas vezes. Existem variações naturais na escrita de uma pessoa em um mesmo documento. Se houver 10 documentos questionados e 10 amostras de um suspeito, já é possível que as palavras e as letras dos documentos questionados apareçam nas amostras, além de haver quase todas as características individuais do suspeito nos dois, se ele realmente for o autor.

O processo de análise forense de caligrafia é muito meticuloso. Um analista irá usar uma lente de aumento e algumas vezes um microscópio para fazer as comparações. Um analista procura uma série de traços individuais, como:

  • formato da letra - inclui curvas, inclinações, o tamanho proporcional das letras (relação entre o tamanho das minúsculas e maiúsculas e entre a altura e largura de cada uma), a inclinação da escrita e o uso e aparência das ligações entre as letras. É válido observar que uma pessoa pode fazer uma letra de forma diferente dependendo de onde a letra estiver, se no começo, meio ou fim da palavra. Então, o analista irá tentar encontrar exemplos das letras em cada uma das disposições;

  • pressão da grafia - observa-se o quão fortes ou fracas as linhas são, o que indica a pressão utilizada e a velocidade da escrita;

  • formatação - inclui o espaço entre as letras e as palavras, a disposição das palavras na linha e as margens em branco na página. Também leva em consideração o espaço entre as linhas. Observa-se se as palavras encostam na linha de cima ou na de baixo.
Com esses traços em mente, vamos dar uma olhada em um método comum de comparação, no qual o analista começa com a letra inicial da primeira palavra do documento questionado e monta uma tabela. Para ilustrar o processo, vamos simular uma comparação usando um documento questionado e uma amostra, cada um contendo uma única sentença, o que seria um pesadelo se o caso fosse real, mas que é perfeito para esse exemplo.

sentença questionada manuscrita 'i have your daughter'
Documento questionado

amostra de sentença manuscrita 'i have your daughter'
Amostra fornecida pelo "suspeito"

À primeira vista, as duas sentenças não parecem ser diferentes o suficiente para comprovar que foram escritas por duas pessoas distintas. Se analisadas mais de perto, as duas irão parecer bem similares. Então, vamos montar uma tabela que cataloga cada forma variada de letra que aparece na versão questionada da sentença. Se encontrarmos um "a" muito parecido com aquele que já temos na tabela, podemos pulá-lo. Utilizaremos somente as formas diferentes de "a" que constam no documento, levando em conta o formato, a ligação entre as letras, os espaços e outros traços. Na análise forense, cada forma de letra seria "copiada" usando uma câmera digital, mas aqui vamos fazer isso à mão. As letras também seriam separadas entre maiúsculas e minúsculas. Mas aqui vamos simplificar o processo que determina se as sentenças são compatíveis, já que é apenas um exemplo e não uma comparação exata ou profissional.

sentença questionada manuscrita 'i have your daughter'

tabela de letras na sentença do documento questionado

A seguir, vamos fazer o mesmo tipo de tabela usando a amostra:

amostra de sentença manuscrita 'i have your daughter'

tabela de letras na sentença da amostra

Por fim, vamos comparar as tabelas e ver se as formas de letra do documento questionado são compatíveis com as da amostra. Como nosso documento possui apenas uma sentença, não temos muitos casos para escolher. Sob circunstâncias normais, obteríamos uma série de combinações em potencial para cada forma de letra, e teríamos de encontrar letras na amostra que fossem compatíveis com as do documento questionado. Para simplificar, a terceira tabela irá comparar lado a lado as duas primeiras, embora os especialistas provavelmente montassem a terceira com as palavras exatas que constituíssem as combinações de letra de cada documento.

tabelas da amostra e do documento, lado a lado
Tabelas do documento questionado (esquerda) e da amostra

Embora essa análise não seja válida no tribunal por causa de sua proporção limitada e da cópia imprecisa das letras, parece que encontramos combinações na amostra para cada letra do documento questionado. Provavelmente uma única pessoa escreveu as duas sentenças.

Mas e se quem escreveu a amostra estivesse tentando copiar a caligrafia no documento questionado? A imitação é um grande problema na análise de caligrafia. Ela ocorre quando uma pessoa tenta disfarçar sua caligrafia para impedir a determinação de uma compatibilidade ou quando tenta copiar a de alguém para que a comparação com a amostra seja imprecisa. Embora a imitação dificulte (e às vezes impossibilite) uma análise exata, existem certos traços que os analistas profissionais procuram para determinar se a amostra foi falsificada. Esses traços incluem linhas sinuosas, começos e finais de palavras mais escuros e fortes e marcas de que a ponta da caneta foi tirada várias vezes do papel. Eles mostram que a pessoa não escreveu de uma forma rápida e natural, mas sim formando as letras com cuidado e lentamente.

A assinatura verdadeira de Mickey Mantle e duas falsificadas
Foto cedida por FBI - Forensic Science Communications
A primeira é a assinatura verdadeira de Mickey Mantle. O FBI determinou que as duas últimas são falsificadas. Perceba as linhas sinuosas e as variações nos começos e finais das palavras.

A imitação é apenas um dos fatores que pode impedir uma análise de caligrafia exata.