Aquilo que é considerado folclórico na cultura popular brasileira é fruto do sincretismo das culturas indígenas, africanas e européias, especialmente da portuguesa. Esse sincretismo resultou em mitos, lendas, festas e crendices que estão entre as mais populares do país. Conheça algumas delas:
![]() Reprodução A versão que Monteiro Lobato deu para a lenda do Saci, em suas obras infanto-juvenis, tornou-se uma das mais conhecidas |
Saci Pererê: o mais importante representante do folclore nacional já ganhou um dia só para ele, o 31 de outubro, para se contrapor ao Dia das Bruxas ou Halloween. O travesso molequinho negro de uma perna só, que fuma cachimbo e usa um gorro vermelho onde reside seus poderes, é uma espécie de duende que tem suas origens provavelmente em mitos indígenas e europeus. Protetor da floresta e dos animais, pode ter suas raízes na cultura dos índios guaranis, que acreditavam na existência de um indiozinho mágico que ficava invisível e protegia os animais, e em personagem similar da cultura popular portuguesa. Dependendo da região do país, pode ser visto como uma criatura do mal ou do bem. Mas a versão do Saci que mais se popularizou é a que Monteiro Lobato deu para a lenda nas suas obras a partir do livro “O Saci”, lançado em 1921. No livro, Tio Barnabé explica para Pedrinho que o Saci “é um diabinho de uma perna só que anda solto pelo mundo, armando reinações de toda sorte e atropelando quanta criatura existe. Traz sempre na boca um pitinho aceso, e na cabeça uma carapuça vermelha. A força dele está na carapuça, como a força de Sansão estava nos cabelos. Quem consegue tomar e esconder a carapuça de um saci fica por toda a vida senhor de um pequeno escravo”.
Curupira: o anão de pelos e dentes verdes, cabelo vermelho e com os pés virados para trás tem suas origens provavelmente na mitologia tupi. Também chamado de Caipora, Caiçara ou Anhanga, entre outros, é um personagem comum nas culturas dos povos nativos da América Latina. Sua função, dependendo da cultura, pode ser a de proteger as matas e a caça ou a de adoecer e matar os índios. Algumas versões o apontam como pai do Saci Pererê e, segundo os índios guaranis, ele seria uma espécie de demônio da floresta que muitas vezes surge montado em um porco do mato. O mito do Curupira é um dos mais antigos do folclore brasileiro. Seu primeiro registro foi feito pelo jesuíta José de Anchieta no século 16.
![]() Prefeitura de Campina Grande / Divulgação Festas juninas super-produzidas viraram atrações turísticas no Nordeste; para críticos, elas perderam características populares, como o improviso e a espontaneidade |
Festa junina: atualização das celebrações pagãs do solstício de verão europeu, as festas juninas no Brasil coincidem com o solstício de inverno e também com a colheita do milho. Elas são celebrações populares que misturaram tradições européias, como a dança de quadrilha francesa, com elementos locais, como a culinária e a música. Também juntam características religiosas cristãs, como a devoção aos santos (São João, Santo Antônio e São Pedro), com costumes pagãos, como as simpatias, danças e bebidas. O processo de folclorização das festas juninas é um dos mais evidentes na cultura brasileira. A estilização de seus elementos e o seu planejamento, muitas vezes para virar uma atração turística, eliminam a espontaneidade e o improviso, características essenciais das culturas populares.
Mula-sem-cabeça: diz a lenda de origem ibérica que é grande a chance de você encontrá-la se passar correndo em frente a uma cruz à meia-noite. A Mula-sem-cabeça é um dos mais moralistas mitos populares. Uma das versões da lenda conta que ela seria uma mulher amaldiçoada por ter mantido relações sexuais com um padre. A maldição se manifestaria nas noites de quinta para sexta-feira, quando a mulher se transformaria na criatura e cavalgaria pelos povoados despedaçando homens e animais que encontrasse pelo caminho. Trazido para as Américas pelos colonizadores espanhóis e portugueses, a lenda é encontrada com algumas variações em diversas culturas populares da América Latina.
Simpatias para casar: o Dia dos Namorados no Brasil é comemorado em 12 de junho, na véspera do dia de Santo Antônio, popularmente conhecido como um santo casamenteiro. É nessa época também que a população mais supersticiosa pratica os rituais que considera mágicos e que podem prever ou ajudar seu futuro na vida amorosa. Para alguém saber se vai se casar ou não, diz a crendice popular que ele deve colocar duas agulhas em um prato com água, à meia-noite do dia 12 para o dia 13 de junho. O casamento estará garantido se as agulhas amanhecerem juntas. Se vai haver casamento, o próximo passo é saber com quem. Uma simpatia para revelar isso é enfiar uma faca novinha em uma bananeira e deixá-la lá até o dia seguinte. Ao retirá-la estará escrito o nome do futuro cônjuge na lâmina.
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Fontes:
CASCUDO, Luiz da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, Instituto Nacional do Livro, 1954.
CASHDAN, Sheldon. Os 7 pecados capitais nos contos de fadas: como os contos de fadas influenciam nossas vidas. Rio de Janeiro:Campus, 2000.
DORSON, Richard M. (org.). Folklore and Folklife: An Introduction. USA: University of Chicago Press, 1982.
LOBATO, Monteiro. Obra infanto-juvenil de Monteiro Lobato. São Paulo: Círculo do Livro, s/d.
PROPP, Vladimir Iakovlevich. Morfologia do conto maravilhoso. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1984.