Introdução

Quando eu estava no ensino médio, dois amigos e eu estudávamos francês enquanto a maioria de nossos colegas de classe optava pelo espanhol. Durante as aulas, nós três ocasionalmente trocávamos bilhetes em francês. Falar e escrever francês nos diferenciava de nossos colegas, definia nosso grupo e nos tornava únicos.

Já que éramos estudantes principiantes, nem sempre sabíamos que palavras usar para nos expressar. Assim, não escrevíamos integralmente em francês. Substituíamos as palavras francesas que não conhecíamos por palavras inglesas, e inventávamos palavras com as quais transmitir o que pretendíamos dizer. Ocasionalmente, escrevíamos frases que começavam em francês e terminavam em inglês, ou vice-versa.

Não levávamos nossa troca de bilhetes a sério, mas essa forma de brincadeira verbal - que a lingüistica designa como substituição de código ou mistura de código - é parte comum do aprendizado de um novo idioma. Nos Estados Unidos, país em que mais de 17 milhões de pessoas falam espanhol em seus lares, essa mistura lingüística ganhou vida própria. Um híbrido de inglês e espanhol conhecido como espanglês pode ser ouvido em áreas predominantemente hispânicas e também na TV e em filmes.

 

Substituição de código e mistura de código

Em termos lingüísticos, um código é todo um idioma ou um componente desse idioma, como uma palavra ou uma sílaba. A substituição de código ocorre quando a pessoa alterna de um idioma para outro e a mistura de código acontece quando a pessoa emprega pequenos elementos de um idioma enquanto fala primordialmente uma segunda língua.

Para aprender mais sobre a origem do espanglês e sua forma de funcionamento, entrevistamos o Dr. Ilan Stavans, professor do Amherst College. Stavans lecionou cursos universitários sobre o espanglês e escreveu um livro no qual detalha sua origem, uso e parte de seu vocabulário. Ele também traduziu a primeira parte do clássico espanhol "Don Quixote de la Mancha" para o espanglês.


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Diversos livros discutem as origens e o desenvolvimento do espanglês. Alguns incluem dicionários de espanglês.

Em seu nível mais básico, o espanglês é uma mistura de palavras e frases inglesas e espanholas, um território intermediário entre os dois idiomas. Freqüentemente emprega palavras inglesas traduzidas erroneamente ou de uso adaptado, que os anglófonos conseguem compreender rapidamente. Por exemplo, se você é fluente em inglês e alguém o classificar como nerdio, provavelmente não demoraria muito para que você compreendesse que está sendo chamado de nerd. Também seria fácil adivinhar que la laptopa é o laptop, e emailiar é um verbo que significa "enviar um e-mail". Outros termos do espanglês são menos transparentes, mas a maioria deles funciona como uma espécie de ponte entre o espanhol e o inglês.

"Acredito que o processo seja bastante arbitrário", explica Stavans. "Muitos verbos ingleses são hispanizados por meio de terminações... alguns substantivos são como que revertidos. O sistema tem lógica, mas não se trata de uma lógica simples. Ela depende dos antecedentes dos usuários do idioma".

Determinar se essas palavras híbridas surgirão em meio a uma estrutura sintática inglesa ou espanhola dependerá basicamente da localização. "Uma pessoa do lado mexicano da fronteira entre México e os Estados Unidos provavelmente usará mais espanhol e menos inglês", diz Stavans.

De modo que a estrutura sintática da sentença tem por base o espanhol, e algumas palavras virão do inglês. Se você estiver bem distante daquelas férteis regiões de fala espanhola, digamos em Montana, a base sintática será o inglês, com algumas palavras vindas do espanhol. Mas uma regra básica se aplica a todas as regiões - o espanglês em geral ignora os pontos de interrogação e exclamação invertidos que caracterizam o espanhol.

De acordo com Stavans, o vocabulário do espanglês também pode variar de região a região e comunidade a comunidade:

depois de anos de reflexão e estudo do espanglês cheguei à conclusão de que não existe um espanglês único, mas diversas variações da linguagem vivas e prosperando nos Estados Unidos, definidas por localização geográfica e local de origem. O espanglês falado pelos norte-americanos de origem mexicana em, digamos, Los Angeles, difere do espanglês dos norte-americanos de origem cubana em Miami ou do espanglês dos porto-riquenhos de Nova York. Cada uma dessas variações tem padrões e idiossincrasias peculiares.

E as variações também são conhecidas por termos específicos, como "cubonics" para o espanglês dos norte-americanos de origem cubana ou "nuyorican" para o espanglês dos porto-riquenhos de Nova York.

Agradecimentos
Obrigado ao Dr. Ilan Stavans por sua assistência neste artigo. O Dr. Stavans é titular da cátedra Lewis-Sebring de Cultura Latino-Americana e Latina do Amherst College, em Amherst, Massachusetts, e autor de diversos livros, entre os quais "Spanglish: The Making of a New American Language". Descubra mais sobre seus cursos e sua carreira literária em seu perfil profissional em Amherst (em inglês).

Além, disso, "a comunidade dos norte-americanos de origem mexicana não fala um único espanglês. As pessoas de San Antonio ou Houston, ou os mexicanos de Nova York e Chicago, usam padrões diferentes, a depender do contato que tenham com outras minorias e com a sociedade mais ampla", diz Stavans. Os diferentes estilos de espanglês também podem variar de acordo com a faixa etária, e os usuários mais jovens tendem a empregar expressões diferentes dos mais velhos.

A despeito de sua grande incidência em muitas comunidades hispânicas, o espanglês não é realmente um idioma ou dialeto. Algumas pessoas o entendem simplesmente como uma gíria. Outros lingüistas o definem como pidgin - uma linguagem com sintaxe e vocabulário simplificados que pessoas que não têm um idioma comum entre si podem usar. Muitos dos dialetos pidgin começam em forma de línguas francas, ou dialetos comerciais que pessoas falantes de idiomas diferentes empregam para se comunicar. O espanglês também tem algo em comum com uma língua interna, língua ou dialeto que um grupo étnico emprega para se diferenciar de outros grupos. Ao mesmo tempo, pode funcionar como um passo para o aprendizado do inglês.

O espanglês não é o primeiro híbrido a conquistar presença desse porte ou a se tornar parte da identidade de uma comunidade. Estudaremos como ele se compara a uma linguagem híbrida semelhante - o iídiche - na próxima seção.

Pidgins e Creoles

Quando uma comunidade começa a usar um pidgin como seu idioma primário, o pidgin se torna um creole. Alguns exemplos de linguagens creole são:

  • o creole do Haiti, com base no francês.
  • gullah, baseado no inglês e falado nas ilhas Sea, da Carolina do Sul.
  • o creole jamaicano, também conhecido como Patois ou Patwa.