Os cofres das escolas

Carnaval do Rio de Janeiro
Divulgação: Liesa
Os desfiles das escolas atualmente movem milhões de reais

Da folia amadora dos anos 30 para os desfiles suntuosos que vemos hoje nos sambódromos, muita coisa mudou. Principalmente o orçamento.

Foram criados concursos de desfiles e estabelecida uma hierarquia entre as agremiações de acordo com seus resultados. No topo dos grupos está o especial. São dele as escolas que vemos na TV, desfilando nos sambódromos de São Paulo e Rio de Janeiro. Para chegar lá, porém, a escola precisa suar muito.

Toda escola começa de baixo. Para que seja oficialmente reconhecida como escola de samba, a agremiação aspirante deve se filiar à organização que representa as escolas de base perante o governo. No Rio e em São Paulo, elas se chamam União das Escolas de Samba.

Associar-se, por exemplo, à União das Escolas de Samba de São Paulo (Uesp) não é tarefa fácil. Em 2008, a união abrirá inscrições para novas escolas de samba pela primeira vez em 8 anos. Para pleitear um lugar ao sol para o Carnaval de 2009, as candidatas devem se encaixar em um perfil que inclui um requisito interessante: devem estar a pelo menos 5 km de outras escolas, sejam da Uesp ou da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo (Ligasp).

Uma vez filiada, a novata passa a integrar o grupo mais baixo da pirâmide. As vencedoras do concurso desse grupo são içadas ao superior e passam a receber uma subvenção financeira anual do governo para organizar um desfile. O valor cresce de acordo com a hierarquia. Em São Paulo, a variação fica num intervalo de R$ 30 mil a R$ 450 mil, segundo o diretor de projetos da União das Escolas de Samba de São Paulo (Uesp), Edelmo dos Santos. Já no Rio, o valor mais alto chega a cerca de R$ 700 mil.

O desfile de uma das grandes escolas, porém, é muito mais caro que isso. Apasar de a Mocidade Alegre, campeã do carnaval paulistano de 2007, declarar ter gasto cerca de R$ 600 mil, a conta da vencedora carioca do mesmo ano, a Beija-Flor de Nilópolis, chegou aos R$ 7 milhões.

E como as escolas conseguem a diferença de dinheiro? Patrocínios, arrecadação interna e divisão de faturamento dos desfiles.

A arrecadação interna é a menos rentável. Ela vem da venda de fantasias, de ingressos para ensaios da bateria e artigos promocionais (camisetas, bonés, chaveiros...) e mensalidade de associados. As fontes mais gordas são os patrocínios e o dinheiro que vem da venda de ingressos para o sambódromo nos dias de Carnaval e de direitos de imagem para redes de TV.

Mas os caixas das escolas não são livros tão abertos assim. Há muita polêmica em torno das suas fontes de renda e há ligações de algumas delas com dinheiro do narcotráfico e o jogo do bicho. Os donos das bancas de jogo do bicho já chegaram, inclusive, a ser homenageados.

Para o carnaval de 2008, o presidente da República, Luis Inácio Lula da Silva, determinou que a estatal Petrobras contribuísse com a festa carioca entrando com um gordo patrocínio para justamente reduzir as “influências negativas” nos cofres das agremiações.

O valor repassado pela estatal, juntamente com a parceira Unipar, a sócia Braskem e um grupo de empresas de plástico clientes da Braskem, somou R$ 12 milhões. Só para se ter uma idéia da dimensão desse dinheiro, o orçamento médio da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), contando apenas as subvenções, gira em torno dos R$ 5 milhões.