Descartes: pensador e cavalheiro

René Descartes foi o filósofo mais original que surgiu desde a morte de Aristóteles. Nesse intervalo de quase 20 séculos, o mundo teve pensadores importantes como Santo Agostinho, Averróis, Avicena e Tomás de Aquino, mas eles apenas requentaram o que Platão e Aristóteles tinham criado. Nenhum deles apresentou nada de original. Descartes modificou esse estado moribundo da filosofia e mostrou ser um dos espíritos mais brilhantes de todos os tempos.

Ele nasceu em 31 de março de 1596 no vilarejo de La Haye, na antiga província de Touraine, na região central da França. Sua mãe morreu um ano após seu nascimento e seu pai, que logo se casou novamente, era juiz na Alta Corte da Bretanha e passava a maior parte do tempo longe de casa. Descartes foi criado pela sua avó. Sua infância foi solitária e ele revelava-se introspectivo e reservado. Aos oito anos começou a estudar num internato jesuíta destinado aos nobres locais. Como o reitor era amigo da família, o jovem e frágil Descartes tinha seus privilégios. Um quarto individual, permissão para dormir até a hora que quisesse e uma atmosfera mais relaxada para aprender. Seu desempenho foi brilhante e ao sair do internato mostrava-se um jovem sadio, mas entediado com os ensinamentos que aprendera, pois achava tudo uma bobagem.

Com 16 anos foi estudar direito na Universidade de Poitiers, mas após dois anos se desinteressou pelo assunto. Como dispunha de uma boa renda em função das propriedades que havia herdado da mãe – e por conta disso não precisava se preocupar em trabalhar – foi viver uma vida de solteiro rico em Paris. Mas também se entediou disso após dois anos por lá. Apesar de solitário, Descartes era irrequieto. Após a temporada em Paris tomou uma decisão surpreendente. Católico, acostumado a levantar por volta do meio-dia e sem experiência militar, ele alistou-se como voluntário nas tropas protestantes do Príncipe de Orange dos Países Baixos, que estavam em guerra com a Espanha católica.

As coisas começariam a mudar prá valer em função de um encontro fortuito. No seu período de vida militar, enquanto passeava pelas ruas da cidade holandesa de Breda, encontrou um cartaz com um problema matemático não-solucionado e colocado como um desafio aos transeuntes. Descartes que não entendia holandês pediu a um homem que também observava o cartaz que o traduzisse para ele. O homem concordou em traduzir desde que Descartes se comprometesse a tentar resolver o problema. Ele aceitou e na tarde seguinte levou a solução à casa do homem, que na verdade era o filósofo e matemático holandês Isaac Beekman. Esse encontro despertou o interesse de Descartes pela matemática e pela filosofia.