Cola tecnológica surpreende educadores chineses

Apetrechos que ajudam a burlar fiscais são confiscados em exame que seleciona estudantes para faculdades

Os muitos filmes produzidos por Holywood sobre a cultura asiática sempre mostraram os orientais como um exemplo de dedicação, esforço, sabedoria e força de vontade na busca de seus objetivos. A honra normalmente esteve associada ao estereótipo dos cidadãos de países como Japão, Coréia do Sul e China. E os resultados obtidos por estudantes que passaram pelo sistema educacional desses países em testes educacionais internacionais nunca deixaram dúvidas a esse respeito. Eles costumam brilhar nos rankings.

Justamente no sentido oposto, o sistema educacional de países ocidentais sempre ficou em segundo plano nesses testes e sofre críticas por ser muito suave em suas políticas de cobrança em relação aos estudantes por ser considerado muito liberal. Quem nunca ouviu a frase quem não cola não sai da escola?

Mas estudantes chineses abalaram essa imagem positiva carregada pelos asiáticos. Em um teste de avaliação de conhecimentos visando selecionar os melhores e mais capacitados alunos para frequentar as faculdades do país, realizado no final da primeira quinzena de junho, dezenas de inscritos foram flagrados por fiscais durante prova em Xangai utilizando-se de dispositivos de alta tecnologia para colar e obter vantagens ilícitas contra colegas que estudaram mais. A repercussão do escândalo balançou os alicerces do sistema educacional chinês.


Policial mostra material confiscado: par de óculos com câmera escondida e um receptor minúsculo na moeda.
Foto: Stringer/Reuters

Estudantes mostram criatividade para enganar fiscais

Cerca de 40 estudantes foram pegos na tentativa de driblar os fiscais. O grupo é majoritariamente originário da cidade de Chengdu, que fica no sudoeste do país, e teve extrema criatividade para desenvolver os apetrechos.

Eles criaram objetos como óculos que tinham uma pequena câmera colocada na lente. Um transmissor sem fio acoplado a uma moeda emitia as imagens para um posto avançado fora do local da avaliação. Lá, uma equipe de apoio via as questões da prova, consultava fontes de pesquisa e enviava as respostas também por emissões sem fio codificadas para seus parceiros.

Mas a criatividade dos estudantes que pretendiam colar não parou por aí. As câmeras foram escondidas em muitos outros lugares como canetas, conjuntos de copos e fones de ouvidos sem fio que se assemelhavam a tampões.

Um dos trapaceiros usava uma câmera instalada discretamente em sua camiseta regata cinza que tinha como adereço uma ficha. Nesse enfeite, havia um dispositivo capaz de se conectar com um telefone celular habilitado para fazer a transmissão e a recepção de informações.

Teste funciona como vestibular

Os estudantes desenvolveram toda a tecnologia para realização do exame chamado de Gaokao. Ele é um teste inspirado nas provas seletivas norte-americanas apelidadas de SAT, que são feitas por alunos do ensino médio. A pontuação obtida nessas avalições é determinante para que os estudantes sejam selecionados pelas melhores instituições de ensino superior.

No Brasil, o equivalente do Gaokao seria o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), que embora não seja utilizado por todas as instituições de ensino superior, é uma avaliação que serve como base no processo seletivo de algumas faculdades brasileiras no momento de escolher seus alunos.

O Gaokao foi realizado por 9,4 milhões de estudantes em todo o país. Na capital Pequim, até a polícia foi mobilizada para monitorar os estudantes e ajudar a conter os incidentes.

"A cola acontece em todos os países, mas é extremamente galopante na China", afirmou Yong Zhao, da Faculdade de Educação da Universidade de Oregon. Segundo o especialista, isso é uma característica de exames padronizados como o Gaokao, mas testes desse tipo são "o único caminho para mobilidade social". "É a única forma de mudar a vida das pessoas", disse em entrevista ao Business Insider.


Estudantes chineses em teste para conseguir uma vaga em uma Universidade de tecnologia.
Foto: China Daily/Reuters

Preparação para teste leva estudantes a medidas extremas

Por ser praticamente a única possibilidade de estudantes mais pobres terem acesso às faculdades, algumas pessoas se submetem a esquemas de preparação extremos para que possam conseguir um desempenho suficiente para obter notas altas no Gaokao. Em 2012, foi documentado através de fotos que um grupo de estudantes utilizava aminoácidos para conseguir se manter "ligado" no período de preparação.

Para uma melhor preparação, foi criada uma versão chinesa de cursinhos que lembram os antigos internatos visando o teste com horários rigososos de estudo. Um desses locais é o Hengshui High School, onde a programação diária começa às cinco horas da manhã e segue até as dez da noite. Todas as atividades são estabelecidas através de um cronograma rígido com aulas, intervalos, períodos de estudo, tempo para descanso e atividades extracurriculares. Na escola, os estudantes não podem levar telefones celulares. Eles têm apenas um dia de folga por mês e são vigiados constantemente através de câmeras de segurança.

Sun Yaijian, estudante do Hengshui, afirmou em entrevista ao jornal China Daily, que sua programação diária reserva apenas de três a cinco minutos para o jantar. Cortar o período de refeições é bastante comum, de acordo com a reportagem, para que o tempo economizado seja disponibilizado para os estudos.

O regime tem dado resultados. Hengshuil é considerada a melhor escola secundária do país e já mandou mais de cem estudantes para as duas melhores universidades do país. Em 2014, cerca de quatro mil estudantes de lá fizeram o Gaokao.

China tentou mudar sistema de avaliação, mas sem sucesso

De acordo com Yong Zhao, o governo chinês chegou a estudar mudanças e até tentou implementar algumas delas tentando diminuir a importância do Gaokao na hora da seleção dos estudantes para o sistema universitário. Esses esforços, todavia, não foram bem sucedidos. Isso acontece, na visão do especialista em educação, por causa da formação do povo chinês, que só valoriza os testes como um sistema de meritocracia. "Os resultados dos testes são uma medida muito pobre de futuro de uma pessoa, eles são uma medida muito pobre de futuro de um país", disse ele.