O carnaval da Bahia vai atrás do trio elétrico

No carnaval da Bahia, só não vai atrás do trio elétrico quem já morreu, diz a letra de Caetano Veloso. E apesar de haver em Salvador uma área dedicada exclusivamente às escolas de samba, são os trios elétricos que atraem anualmente 2 milhões de foliões vindos de todos os pontos do planeta.

Coreografia de trio eletrico
Ana Soares/Emtursa
Foliões em abadás dançam na área de segurança de trio elétrico

Ficar em pé horas e horas, sob o fortíssimo sol da capital baiana, cantando e dançando as animadas coreografias do axé pode até soar cansativo para quem nunca esteve lá. Mas, para os foliões de plantão, que voltam ano a ano a Salvador, a mistura de axé, cerveja gelada e clima de paquera no estilo “ninguém é de ninguém” supera qualquer cansaço. Talvez seja esse um dos motivos para que os jovens sejam maioria na multidão.

A energia para agüentar a bronca vem de bandas como Chiclete com Banana, Asa de Águia, Banda Eva e Araketu, além de cantores como Ivete Sangalo, Jammil, a ex-Babado Novo Cláudia Leitte, Armandinho, Gilberto Gil, Carlinhos Brown e Daniela Mercury, que suam a camisa, literalmente, pra manter todo mundo pulando.

A folia soteropolitana se destaca das demais do resto do país por sua forte ligação com a cultura afro-brasileira. Além do próprio axé, ritmo que teve origem nos terreiros de candomblé, alguns dos mais famosos blocos, bandas e grupos, como Ilê Ayê, Filhos de Gandhy, Timbalada e Olodum, são dedicados à exaltação e preservação da cultura negra.

Vamos por partes.

Um trio-elétrico é um caminhão equipado com sistema de amplificação de som e um espaço na “caçamba” para músicos, e um lugar para um bar na parte de baixo. Em torno do trio há um cordão de isolamento para quem quiser curtir a folia de perto e sem tanta aglomeração. Para ficar nesse espaço é preciso comprar um abadá, que custa de R$ 50 a R$ 1 mil, dependendo do bloco. O nome abadá vem de um tipo de camisão folgado de mangas curtas usado por escravos. Do lado de fora do cordão, ficam as pessoas que não têm dinheiro para o abadá, mas não abrem mão de seguir o trio.

Chiclete com Banana
Jonne Roriz/Agência Estado
Circuito Dodô, que segue Barra-Ondina; na foto o trio Chiclete com Banana

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A cidade é dividida em três grandes circuitos para a passagem dos trios: Batatinha (Centro Histórico), Dodô (Barra-Ondina) e Osmar (Campo Grande). Na Quarta-feira de Cinzas, quem trabalhou no feriado e não teve tempo de pular carnaval tem sua chance. Nesse dia, artistas puxam os chamados trios independentes, sem o cordão de isolamento, pelas ruas de Salvador até se cruzarem, nos chamados Encontros de Trios, animando ainda mais a festa.

A história do trio

O primeiro trio elétrico surgiu em 1951. No ano anterior, inspirados pelo frevo do grupo recifense Vassourinhas, Adolfo Antônio Nascimento e Osmar Álvares de Macedo - o Dodô e o Osmar - instalaram alto falantes em um Ford “Fobica” 1929, pintaram confetes nas laterais e saíram pela cidade tocando uma mistura de marchinhas com frevo com seus “paus elétricos” (violão e guitarra elétrica). A combinação dos ritmos resultou no axé. No carnaval seguinte, Temístocles Aragão (que tocava violão) integrou o grupo, que passou a se chamar “O trio elétrico”.

A idéia agradou, novos trios “pipocaram” nos anos seguintes e muitos blocos, que até o fim dos anos 60 saíam às ruas acompanhados de grupos de percussão ou de baterias de escolas de samba, passaram a ser acompanhados de trios.

Hoje, os trios elétricos trabalham o ano inteiro em todo o país. Os baianos são os criadores do carnaval fora de época, as chamadas micaretas, copiadas no restante do Brasil. Remontar o carnaval foi uma idéia para driblar as dificuldades turísticas causadas pela mobilidade da data.

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Cultura afro-brasileira

Os grupos afro-brasileiros podem ser divididos em três: bandas, afoxés e folclórico-religiosos.

Uma das bandas mais famosas da Bahia é Timbalada, grupo de percussão fundado por Carlinhos Brown no início dos anos 90 em seu bairro natal, o Candeal. Além da batida característica, a banda se destaca visualmente. Os timbaleiros, como são chamados os integrantes, tocam com os braços, colo e rosto pintados com temas tribais em tinta branca.

O grupo faz apresentações em diversos países e chegou a ganhar, em 1992, um Grammy, prêmio de maior prestígio da música. O nome da banda faz referência aos timbales, instrumentos de percussão usados juntamente com objetos cotidianos como panelas, latões e baldes.

Outro grupo famoso é o Olodum, criado em 1979 no bairro Maciel-Pelourinho. O nome vem de Olodumé, divindade do candomblé responsável pela criação do Universo. Os uniformes e instrumentos dos integrantes levam o logo do bloco: um símbolo da paz colorido com as cores vermelho, verde e amarelo, típicas dos movimentos africanos.

Na década de 90, o Olodum ganhou projeção internacional quando gravou com o então Rei do Pop, Michael Jackson, o clipe da música “They don’t care about us” (“Eles não se importam conosco”), que fala sobre exclusão social. As gravações acontecerem na favela Santa Marta, no Rio de Janeiro.

Os afoxés, por sua vez, têm caráter religioso e representam casas de culto afro-brasileiras. O primeiro afoxé de Salvador foi criado em 1895 e se chamava “Embaixada Africana”. O mais famoso atualmente é o Filhos de Gandhy, com 10 mil integrantes (só homens), fundado em 1949 por um grupo de trabalhadores pobres do porto.

Com tambores e agogôs, os participantes entoam cânticos religiosos na língua africana iorubá em ritmo de ijexá (ritmo ritualístico de comunidades de escravos) vestidos com turbantes brancos, roupas largas feitas de lençol, nas cores azul e branco (associadas às divindades do candomblé Oxalá e Ogum) e colares de contas. Considerados amuletos da sorte, os colares são distribuídos aos observadores como forma de desejar paz ao longo do ano.­

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