O entrudo

O Carnaval chegou ao Brasil na forma de uma irreverente brincadeira de rua chamada entrudo, tradição trazida por portugueses. Durante três dias, eles brincavam de molhar e sujar uns aos outros, arremessando jatos de água com bisnagas, ovos, farinha e limões-de-cheiro. Estes últimos eram esferas de cera preenchidas com água perfumada e tinham esse nome por serem moldadas em limões ou laranjas, segundo descreve Machado de Assis em seu conto "Um dia de entrudo", de 1874:

"Era no tempo em que ao carnaval se chamava entrudo, o tempo em que em vez das máscaras brilhavam os limões de cheiro, as caçarolas dágua, os banhos, e várias graças que foram substituídas por outras, não sei se melhores se piores.

'Dois dias antes de chegar o entrudo já a família de D. Angélica Sanches estava entregue aos profundos trabalhos de fabricar limões de cheiro. Era de ver como as moças, as mucamas, os rapazes e os moleques, sentados à volta de uma grande mesa compunham as laranjas e limões que deviam no domingo próximo molhar o paciente transeunte ou confiado amigo da casa.'...

... 'No momento em que tomamos conhecimento com a família Sanches estão eles em boa harmonia despejando cera dentro das fôrmas de limões ou enchendo os que já estão prontos com água de cheiro....Vinham para a mesa as caçarolas cheias de cera derretida, e todos aqueles operários mergulhavam nelas os limões e as laranjas, ou despejavam cera dentro de fôrmas de pau."

Dia Dentrudo
Reprodução/Museu da Chácara do Céu
Aquarela "Dia Dentrudo", de Jean-Baptiste Debret, de 1823

 

O nome entrudo, do latim introitus, significa “entrada” e faz referência à introdução à Quaresma. A festa foi oficializada pelas autoridades do país em 1723. Desde o início, o entrudo refletiu as divisões sociais da colônia. Enquanto escravos negros festejavam pelas ruas, os brancos brincavam atirando água suja e ovos neles das janelas de suas casas. As famílias mais ricas deixavam as cidades durante o período e se retiravam para casas de campo - prática que ocorre até hoje.

Apesar do clima de folia, há relatos de foliões que invadiam casas para molhar pessoas, e as guerras de ovos, limões-de-cheiro (preenchidos por alguns com líquidos mal-cheirosos) e farinha muitas vezes terminavam em confusões e eram consideradas violentas. O entrudo passou a ser reprimido pelas autoridades no início do século 20, os objetos arremessados na brincadeira foram substituídos por confetes e serpentinas, e o entrudo foi, aos poucos, dando espaço para o Carnaval de fantasias e música.

Em 1840 foi realizado o primeiro baile de máscaras no país – influência das festas de Veneza, na Itália, e Nice, na França. O baile foi organizado pelo Hotel Itália, no antigo Largo do Rócio, no Rio de Janeiro, e fez sucesso entre a classe média dando origem aos carnavais de salão. Com o tempo, os bailes passaram a ser realizados em teatros. Esses bailes eram embalados pela polca, ritmo animado originário da região de Boêmia, criado no início do século 19. As músicas eram dançadas geralmente aos pares.

Os cordões

Nas ruas, os foliões passaram a organizar-se em cordões no final do século 19, uma espécie de precursor dos blocos e das escolas de samba, que desfilavam em cortejo atrás de um estandarte. Alguns anos depois, já no início do século 20, a inauguração da Avenida Central no Rio de Janeiro (atual Av. Rio Branco), trouxe os corsos, automóveis abertos e caminhões em que desfilavam famílias fantasiadas.

Por volta de 1850 o sapateiro português José Nogueira de Azevedo Paredes reuniu os amigos e agitou as ruas da cidade com bumbos, zabumbas e tambores. Sua manifestação inspirou imitações nos anos seguintes, e Zé Pereira, como ficou conhecido devido à troca de seu sobrenome por confusão, tornou-se um personagem Carnavalesco.

Em São Paulo, o primeiro cordão surgiu em meados de 1914, no bairro da Barra Funda, na Zona Oeste da cidade, criado por Dionísio Barbosa, negro da primeira geração de escravos livres. O bairro era um reduto negro, onde viviam muitos ex-escravos das lavouras de café do interior de São Paulo, que vieram à cidade em busca de oportunidades. Naquele ano, Dionísio e sua família saíram pelas ruas para festejar o Carnaval com danças e música. O grupo, de cerca de 20 pessoas, cresceu. O uniforme dos homens – camisas verdes e calças brancas – inspirou o nome do cordão, que mais tarde se se tornaria a escola de samba Camisa Verde e Branco.

Mais cordões foram organizados em outros pontos pobres da cidade, a maior parte por negros, e brincavam de inversão emblemática de classes sociais, usando fantasias inspiradas nos membros da corte européia, como rei e rainha, duques, condes etc. Os desfiles começavam nos bairros pobres e seguiam pelas ruas de bairros da elite branca, inconformada com a abolição da escravatura, mesmo quase 30 anos depois. Os desfiles terminavam em repressão policial. Muitos desses cordões se transformaram em escolas nos anos seguintes, e outras agremiações foram fundadas do zero por outros grupos, inclusive pelos brancos.

Na mesma época, no Rio de Janeiro, Ismael Silva e seus amigos sambistas - entre os quais Pixinguinha - fundaram em 1928 a primeira escola de samba do Brasil: a Deixa Falar. Eles se reuniam no bairro Estácio de Sá, e o termo “escola de samba” surgiu de uma brincadeira do grupo. Enquanto a Escola Normal da região formava professores, a Deixa Falar formava professores de samba.

No início da ditadura militar, em 1968, o Carnaval de São Paulo foi oficializado. Juntamente com o futebol, funcionava como uma espécie de “pão e circo” (política do império romano de oferecer alimentação e diversão ao povo para evitar revoltas) em tempos de repressão política.

Em todo o país, os grupos foram se organizando, os cordões e corsos evoluíram para escolas de samba, blocos de rua e trios elétricos e os desfiles passaram a se concentrar em locais específicos conhecidos como sambódromos, deixando para as ruas e salões as festas e brincadeiras dos foliões.

A origem do nome
Não há consenso quanto à origem do nome Carnaval. Uma das possibilidades seria o termo “Carum navalis”, em latim, usado pelos gregos para designar uma espécie de carro em que desfilava uma imagem de Dioniso durante as festas.

Alguns pesquisadores que defendem que o nome vem do termo “dominica ad carne levandas”, que significa ou “domingo de adeus à carne”. A frase teria sido gradualmente abreviada até formar a palavra Carnaval. O termo, referente ao início da Quaresma, foi utilizado pelo Papa Gregório 1º em 590 d.C., ano em que o Carnaval foi reconhecido pelo igreja católica.

Fora do Brasil, o evento é chamado de “Carnival” ou “Mardi Gras”, que, em francês, significa Terça-feira Gorda

Assim como o Brasil, as comemorações do Carnaval verde-amarelo não têm só uma face. Se no Rio de Janeiro, a festa se concentra nos sambódromos, em Olinda (PE), os mamulengos­ que sobem e descem as ladeiras da cidade é que fazem o espetáculo. Enquanto na Bahia impera o axé music, nas ruas de Recife só se ouvem as orquestras de frevo.

Nas próximas páginas você vai ver como são as comemorações em diversas regiões do Brasil. ­

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