O Carnaval está para o Brasil assim como o dia de ação de graças está para os EUA. Ou seja: é o feriado prolongado mais popular do país. Mas os brasileiros não podem se gabar de ter criado o Carnaval. As primeiras festas de Carnaval ocorreram milhares de anos antes de Cristo, quando egípcios, gregos e romanos faziam festas para comemorar as colheitas. Esses povos homenageavam as divindades relacionadas à fertilidade da terra.
Na mitologia egípcia, a deusa Ísis e o touro Ápis, a quem o povo creditava a fertilidade da terra e das margens do rio Nilo, eram saudados com danças e músicas em volta de fogueiras. Na Grécia e em Roma, os homenageados eram Baco (ou Dioniso), da mitologia grega, e seu equivalente romano Saturno em festas chamadas Lupercais, Saturnais, Bacanais ou Dionísias. Ambos eram associados também ao vinho, à transformação, o que explica o tom de folia da celebração, que envolvia músicas, danças, comidas e bebidas, fantasias e orgias, segundo Hiram Araújo, autor do livro “Carnaval – Seis Milênios de História”.
![]() Agência Estado Desfile de bloco do carnaval de Santos em 1960 |
O cantor e compositor brasileiro Chico Buarque traduziu bem esse espírito na música “Noite dos mascarados”, como mostram os seguintes versos: “É carnaval, não me diga mais quem é você/ Amanhã tudo volta ao normal/ Deixa a festa acabar, deixa o barco correr, deixa o dia raiar/ Que hoje eu sou da maneira que você me quer/ O que você pedir eu lhe dou/ Seja você quem for, seja o que Deus quiser”.
Carnaval cristão
Preocupada com as práticas pagãs e os excessos do povo durante as comemorações agrárias, a igreja católica adotou a festa, e, em 590 d.C. criou o Carnaval cristão. O reconhecimento foi feito pelo Papa Gregório 1º, que atrelou o evento ao calendário cristão de forma a não atrapalhar as tradições católicas.
A tradição particularmente ameaçada pelo Carnaval era a Quaresma, um período de 40 dias em que cristãos fazem jejum de carne para se preparar espiritualmente para a Páscoa. Assim, o Carnaval passou a ser comemorado sempre entre o 7º domingo antes do domingo da Páscoa e a Terça-feira Gorda, assim chamada por ser a última em que católicos comem carne antes da Quaresma, geralmente celebrada com banquetes fartos.
Como a páscoa cristã é móvel, ao contrário da judaica (que comemora a libertação do povo da escravidão do Egito e não a ressurreição de Cristo), a data do Carnaval também muda todos os anos. A páscoa cai no primeiro domingo depois do equinócio de outono no hemisfério sul (a primeira lua cheia depois do dia 20 de março, entre 22 de março a 25 de abril; o Carnaval, por sua vez, fica sempre entre 3 de fevereiro a 5 de março.
A partir da segunda metade do século 14, a maioria dos países europeus desvinculou o Carnaval do calendário eclesiástico e passou a definir a data de acordo com seus interesses econômicos, turísticos e climáticos.
Na Renascença, o evento se tornou uma espécie de teatro ambulante, e foram introduzidas à festa máscaras e fantasias. Os disfarces permitiam um clima de farsa, onde era possível a inversão simbólica de sexos, papéis e classes sociais. Surgiram nesse período as figuras do Pierrô, do Arlequim e da Colombina, algumas das fantasias mais populares na época, personagens da “Commedia dell’arte”, um estilo teatral popular de improviso e tom cômico.
Esses personagens foram adotados no fim do século 17 e início do século 18, quando o Carnaval chegou por aqui trazido pelos portugueses católicos que chegaram a Porto Alegre (RS) provenientes das Ilhas Madeira, Açores e Cabo Verde, com o nome de Entrudo.
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