Quanto de mais longe se observa o canibalismo, mais difícil será ver os humanos como superiores aos animais. Surge a pergunta: por que não comemos uns aos outros? O antropólogo William Arens sugere que essa é simplesmente uma estratégia ruim em se tratando de evolução. Já que, segundo a teoria da evolução, nós somos abastecidos por um desejo inato de ver os nossos genes sobrevivendo, e comer uns aos outros é contraditório.
O que Arens quer dizer é arruinado e apoiado pela natureza. Outras espécies evitam a prática do canibalismo, mas recorrem a ela sob certas circunstâncias. No contexto de um galinheiro lotado, as galinhas recorrem à antropofagia. Mais de cem mamíferos, incluindo os chimpanzés, os ursos polares e as lontras (em inglês), já mostraram sinais de canibalismo, geralmente o da variedade para sobrevivência [fonte: PBS (em inglês)].
Isso serve para uma abordagem materialista do canibalismo entre os humanos. Embora isso seja uma estratégia ruim de longo prazo para a sobrevivência de uma espécie, é uma excelente estratégia de curto prazo para sobreviver. A abordagem materialista obteve sucesso com o tempo. O sítio Anasazi (em inglês), no Colorado, sugere que o canibalismo que ocorreu no local aconteceu durante uma longa estiagem, que os membros do vilarejo foram todos mortos de uma só vez. O que gerou um período de 50 anos de antropofagia entre os Anasazi na área. Neste ponto, a estiagem acabou e outras fontes de alimentos estavam disponíveis [fonte: National Geographic (em inglês)].Somente a deficiência nutricional não explica o canibalismo dos anasazis para os pesquisadores que conhecem os sítios. Segundo dois especialistas, o controle social violento é uma ideia cada vez mais atraente [fonte: Turner e Turner]. Algumas sociedades demonstraram uma disposição para praticarem a antropofagia em certas circunstâncias, mas negaram absolutamente em outras. Uma tribo da Nova Guiné vê o canibalismo como "'um pesadelo desumano e cruel ou como um dever moral e sagrado" [fonte: The New York Times].
Essa dicotomia não é tão estranha quanto parece. A sociedade ocidental se contradiz sobre como enxerga o canibalismo. Embora abomine o consumo de carne humana, a sociedade ocidental sanciona transplantes de órgãos e transfusões de sangue. E na sociedade chinesa oriental, os órgãos, a pele e os olhos de prisioneiros executados são vendidos para cirurgias de transplante [fonte: ABC (em inglês)]. Existe alguma diferença entre mastigar, engolir e digerir a carne de outro ser humano a fim de obter a vitalidade esotérica do corpo para si e substituir um órgão doente nosso por um de outra pessoa?
E a vitalidade que alguém consegue obter com o consumo de carne humana é realmente esotérica? De fato, isso é bem literal. Embora o conceito de transferência de sabedoria ou de coragem através de antropofagia seja contrastante com as crenças ocidentais, o canibalismo para sobrevivência é o testamento da vitalidade que os humanos podem obter consumindo outras pessoas. O sistema digestivo humano fragmenta e absorve os nutrientes do alimento. As carnes, por exemplo, fornecem vitaminas, gorduras e proteínas. Todos esses ingredientes essenciais para a vida são encontrados na carne: humana, bovina ou de outro tipo.
No final das contas, a única diferença entre praticar o canibalismo e comer a carne de outros animais ou mesmo plantas é o tabu que muitas sociedades colocam sobre a antropofagia. Uma vez considerada tabu, uma prática não precisa ser explicada; ela é simplesmente proibida. Assim, a antropofagia não é mais controlada pelo apetite, mas pela sociedade.