Os povos Huli, das terras acidentadas do sul da Papua Nova Guiné, possuem a tradição oral do Baya Horo, uma raça de gigantes que se alimentavam de carne humana e que viviam na antiguidade pré-histórica. Enquanto o Baya Horo existiu, os humanos eram obrigados a viverem se escondendo e incapacitados de lutar. Eventualmente, a raça foi extinta e os humanos emergiram das cavernas para assumirem o seu lugar no mundo.
Curiosamente, os Huli não são a única cultura com lendas sobre uma raça de gigantes canibais. Culturas da Europa, da Ásia, da Áfria e da Índia têm histórias parecidas [fonte: Goldman]. Essas lendas compartilham outro ponto em comum, o de que um canibal é considerado uma pessoa a ser temida e alguém que reside fora dos limites do comportamento humano.
![]() © istockphoto.com / Hulton Archive Ilustração de um nativo de Papua Nova Guiné |
Tomar de maneira forçada uma área ocupada por canibais é comparável com construir uma casa no meio de um hábitat animal. Uma pessoa sente que é justificável matar qualquer animal que entra em sua casa, embora seja o humano o intruso. Com os europeus chegando aos montes, em conjunção com o relato de Colombo de que os canibais existiam, os "novos mundos" tornaram-se os lares que os europeus construíram e os "canibais", os animais que eles mataram. A base foi assentada há séculos de genocídio em todo o mundo [fonte: The New York Times]. No mundo todo, culturas rotuladas como canibais pelos colonizadores enfrentaram uma quase ou total extinção em lugares como a Austrália, a América do Norte, as ilhas do Pacífico e a África.
O canibalismo também gera um senso de exclusão. Ele explica por que uma cultura não é como outra ou não é tão evoluída. Os romanos estabelecidos acreditavam que os irlandeses praticavam a antropofagia, como recentemente - no século 18 -, os escoceses pagãos eram considerados canibais pelos europeus cristãos. Usar o canibalismo como uma maneira de excluir um grupo continua ainda hoje. Uma foto circulou pela Internet em 2001, mostrando um homem comendo um feto, citado como a nova iguaria da Ásia. Foram necessários vários anos antes dessa foto ser revelada como parte de uma exposição de arte. Enquanto isso, a foto intitulada: "Comendo gente" foi levada a sério pelos ocidentais ultrajados. Em um mundo globalizado, a lacuna da má interpretação entre o leste e o oeste foi apresentada pela foto.
Talvez a sociedade britânica seja tradicionalmente a mais preocupada com o canibalismo [fonte: Biber (em inglês)]. Porém, a ideia de que outros grupos consomem carne humana parece ser pancultural. Os europeus não são o único grupo a difundir os rumores sobre canibalismo em outras culturas. Quando os espanhóis invadiram a mesoamérica, os astecas presumiram que os conquistadores fossem antropófagos. O famoso explorador e missionário, Dr. David Livingstone, descobriu que algumas culturas que ele encontrou durante as suas viagens pela África, no século 19, acreditavam que os homens brancos comiam carne humana [fonte: Livingstone (em inglês)].
Esses tribais tinham motivos para pensar assim. Livingstone soube que eles achavam que os africanos tomados pelos brancos eram engordados e, então, consumidos. Mas, o que aconteceu foi que eles confundiram a escravidão europeia com canibalismo. Na época, atos verdadeiros de antropofagia podiam ser descobertos no passado recente dos europeus. Durante a Renascença, o consumo dos restos em pó de múmias era uma tendência de cuidado com a saúde.
Apesar disso parecer remoto e até mesmo distante do ato de comer a carne de um ser humano falecido recentemente, esse tipo de prática é também canibalismo. E práticas que são canibalescas por natureza, mas permanecem sancionadas porque estão fora da definição dada pela antropofagia, ainda existem no ocidente atualmente. Na verdade, você pode virar um canibal algum dia.