Hoje, muitos antropólogos concordam que o canibalismo ritual ocorreu em algumas sociedades ao longo de toda a história humana. Mesmo assim, segundo a visão de William Arens, um cientista deve ver uma pessoa cortar um pedaço da carne de um corpo e colocá-la na boca para provar definitivamente que ele aconteceu. Esse tipo de prova é escassa e oculta.
Provar a antropofagia aprendida em sociedades extintas é ainda mais difícil. Em 1999, ossos neandertais de cem mil anos encontrados em uma caverna perto do Rio Rhone, na França, mostravam sinais de consumo humano. Os ossos pareciam ter sido abertos com uma pedra e tiveram a mandíbula removida. Os cérebros de seis humanos parecem ter sofrido o mesmo destino. Os crânios foram quebrados e os cérebros parecem ter sido consumidos.
![]() © istockphoto.com / fanelie rosier Esqueleto de um neandertal encontrado durante a escavação intitulada La grotte de Clamouse, na França. Uma teoria de 2008 sugere que o canibalismo extingui a raça homínida. |
Nos anos 50 e 60, antropólogos que estudavam os povos Fore, tribo da Papua Nova Guiné, documentaram o surgimento do kuru, uma doença cerebral espongiforme degenerativa. Os Fore contraíram a doença pelo consumo do cérebro de seus parentes como parte de um ritual funerário. Kuru, que é a versão humana da doença da vaca louca, é altamente contagiosa. Se a doença podia quase extinguir os Fores no século 20, é possível que possa ter extinguido também os neandertais milênios antes [fonte: ABC (em inglês)].
Outros locais apresentaram provas de antropofagia. Os arqueólogos procuram marcas de esquartejamento, fendas ou riscos nos ossos feitos com objetos pontiagudos usados para retirar a carne do osso. Marcas de esquartejamento são provas de que foi um humano quem retirou a carne, uma vez que somos as únicas espécies que sabem usar ferramentas dessa maneira. O ato de escaldar é outro indicativo de que um humano cozinhou outro humano. As marcas brilhantes surgem por causa do atrito de um osso com as paredes internas de uma panela de metal quando cozido. Juntas ou sozinhas, as marcas de escaldagem e de esquartejamento em ossos humanos sugerem canibalismo.
Entretanto, 'sugerir' é uma palavra operativa. Ao examinar uma prova antiga de antropofagia, sempre acabará existindo um indicativo claro de que o consumo real de carne humana por outro humano ocorreu; essa prova é encontrada nas fezes. Os músculos humanos contêm uma proteína única chamada mioglobina que resiste ao cozimento e à ingestão. Se a substância estiver presente em fezes humanas, a única explicação é que um humano consumiu, digeriu e excretou outro humano.
Essa prova foi encontrada em 1994, no Colorado, em uma caverna do povo Anasazi (em inglês), datada de 1150 d.C. Coprólitos, fezes humanas fossilizadas, foram encontrados junto com uma panela de cozimento com restos de tecido humano, ossos com marcas de esquartejamento e ferramentas manchadas com sangue humano [fonte: The New York Times]. A evidência de canibalismo fornecida pelo sítio de Anasazi é impressionante. Ainda assim, os pesquisadores do sítio do Colorado estão tratando a evidência com precaução. Um ancestral do canibalismo é um espectro que a ciência aprendeu a ser reticente antes de lançá-lo sobre um povo.