Em 1979, o antropólogo William Arens gerou uma controvérsia com a publicação de seu livro, "The Man-Eating Myth" (O Mito do Canibalismo), que durou bastante tempo. Arens utilizou a abordagem oposta do canibalismo que os etnógrafos (antropólogos que documentam culturas humanas) tinham até aquele ponto. Basicamente, ele disse: prove. Até a publicação de seu livro (e muito tempo depois), os antropólogos acreditavam que uma cultura tinha como objetivo a prática do canibalismo. Mas, Arens levantou uma questão válida: como sabemos disso?
O antropólogo não entrou em disputas sobre instâncias do canibalismo para sobrevivência ou patológico (empreendido como curso de insanidade, como Armin Miewes) documentados. Foi com o canibalismo aprendido que Arens teve problemas. Grande parte da documentação de antropofagia ritualizada era de segunda mão. Quase não haviam testemunhas confiáveis em literatura sobre canibalismo que realmente viram um grupo comer a carne de outra pessoa durante uma reunião socializada. Os relatos de práticas antropofágicas vinham de patrulhas de fronteiras, missionários, exploradores, soldados e outras pessoas que podem ter se enganado sobre tais práticas e não entenderam os rituais que viram. Existe até mesmo a possibilidade de terem inventado histórias sobre canibais.
Arens queria que os antropólogos revissem as evidências jocosas que ele reuniu durante vários séculos. Algumas delas não se destacavam. Por exemplo, foi Cristóvão Colombo quem criou o termo 'canibal', baseado no nome de uma tribo em Hispaniola, onde ele pisou pela primeira vez no século 15 [fonte: New Scientist (em inglês)]. Colombo e a sua tripulação fizeram contato com os povos arauaques (em inglês), uma tribo pacífica. Segundo eles, os vizinhos inimigos, os caraíbas, comiam a carne de pessoas e que seria melhor ficar longe deles.
![]() © istockphoto.com / Steven Wynn Ilustração de Cristóvão Colombo por Parmigianino. |
Aqueles que não compartilham da visão de Arens afirmam que as chances de se descobrir um local antigo onde um incidente isolado de canibalismo para sobrevivência tenha ocorrido são bastante improváveis [fonte: The New York Times]. Pensar de outra maneira é, de certo modo, um jeito de descobrir uma nova espécie de ave pré-histórica e decidir que ela é a única de sua espécie. É muito mais provável que o que os arqueólogos estão vendo em locais antigos de canibalismo apoia a ideia de que ele foi difundido entre os primeiros humanos.
Mas, mesmo as histórias de canibalismo para sobrevivência do Donner Party (em inglês) não podem ser checadas. Arqueólogos escavaram sítios em Donner e não encontraram nenhuma evidência que prove isso. Uma escavação intensiva, em 2006, no sítio arqueológico de Alder Creek - onde conhecidamente o canibalismo ocorreu - resultou em ossos de animais com indicações claras de que foram esquartejados e que seus nutrientes foram consumidos pelos Donners [fonte: Universidade de Oregon (em inglês)]. O fato de nenhum osso humano ter aparecido sustenta os sinais inventados de terem servido como fonte de alimento (leia mais sobre esses sinais na próxima página).
Isso não necessariamente significa que o canibalismo para sobrevivência não ocorreu entre o Donner Party. É possível que os membros que consumiram a carne não fizeram isso com muito entusiasmo do que se o fizessem com carne de animais, assim, não esquartejaram ou cozinharam os companheiros colonizadores com tanta voracidade para deixarem sinais. Mas o caso Donner Party é revelador: ele demonstra a importância da prova concreta. Sem uma prova verdadeira de que o canibalismo ocorreu só nos resta a suposição.