Embora o campo da antropologia tenha identificado diferentes categorias de canibalismo, ela ainda tenta entender completamente o comportamento atrelado a isso. A questão permanece: por que os humanos começaram a comer uns aos outros? Essa ciência é dividida sobre a base de abordagem do conceito. É o dilema do ovo e da galinha. O canibalismo surgiu a partir da necessidade e adornado com um raciocínio metafísico depois disso, ou o canibalismo surgiu com as práticas rituais estabelecidas? Especificamente, esse argumento está dividido entre duas escolas de pensamento da antropologia: o materialismo e o idealismo.
Os povos astecas são um bom exemplo dessa disputa. A mesoamérica há muito tempo é citada como o centro da antropofagia pré-colombiana, e liderando o grupo estavam os astecas. O sacrifício ritual foi um alicerce para a civilização asteca e eles eram assassinos prolíficos (em inglês). Cerca de 250 mim pessoas (quase 1% da população) eram sacrificadas todo ano [fonte: Ortiz de Montellano (em inglês)]. Eles deixaram para trás amplas evidências físicas e culturais de tal prática. Através do sacrifício e da antropofagia resultante disso, tanto quem consumia como a pessoa sacrificada eram elegíveis para a vida após a morte. Como resultado, as vítimas astecas sacrificadas, geralmente, estavam dispostas a isso. Mas, essas crenças partiam do canibalismo ou era o contrário?
Os materialistas afirmam que o canibalismo ritualizado se formou após atos de sobrevivência. Uma escassez de fontes de alimento por causa de uma estiagem vasta e duradoura de uma área pode ter obrigado povos de diferentes culturas a atacarem e comerem uns aos outros. E a partir da prática prolongada, uma cultura podia procurar justificar ou apoiar o que os seus ancestrais achariam abominável, dando como contexto a religião. Com os astecas, esse contexto foi formulado alimentando o sol com sangue através do sacrifício e comungando com um poder superior por meio da antropofagia [fonte: Ortiz de Montellano (em inglês)]. Ao ritualizar o consumo de carne humana, a prática se transformou em algo mais do que uma refeição; ela se tornou espiritual. Como escreveu a antropóloga Peggy Reeves Sanday, "o canibalismo nunca é só o ato de comer" [fonte: The New York Times].
Os idealistas concordam. Eles apenas pensam que as razões do canibalismo ritualizado são muito mais esotéricas do que as apresentadas pelos materialistas. Ao invés da cultura ser moldada pelo seu ambiente, os idealistas veem os humanos interpretando o mundo com simbologias. Por exemplo, após a morte, o cérebro de uma mãe vira um símbolo de sua sabedoria. Ao identificar partes do corpo como possuindo propriedades místicas, que podem ser transferidas de um humano para outro através da ingestão, o aspecto ritual aparece antes do canibalismo.
Independente de como o canibalismo veio a ser associado com a religião, a ideia de comer a carne de outra pessoa para fins espirituais parece estranha e abominante. Mas o conceito é colocado em perspectiva quando alguém considera a prática cristã da comunhão, o que estimula o consumo do corpo de Cristo. Esse ritual religioso simula o canibalismo e é largamente aceito. O motivo de tal antropofagia simulada ser bem recebida é porque ela é compreendida.
Isso nos faz questionar: a noção de que o canibalismo ritual existiu literalmente em algum lugar do mundo é simplesmente uma falha de interpretação? É possível que os atos dos primeiros missionários, soldados e exploradores terem sido descrições errôneas de rituais? Isso nos leva a uma terceira questão: será que o canibalismo ritual jamais existiu?