Canibalismo aprendido: exocanibalismo

O exocanibalismo tem mais a ver com os conceitos da antropofagia ocidental do que o endocanibalismo. A prática não está preocupada com ritos funerais ou com a perpetuação de uma linhagem. Frequentemente, o exocanibalismo está baseado no consumo de carne como meio de aterrorizar outros grupos, roubar a força vital de alguém ou simplesmente comer.

O último exemplo é o caso de Mianmin, um grupo que reside nas montanhas de Papua Nova Guiné, que era conhecido pela prática do exocanibalismo - resultado de disputas entre vilarejos vizinhos. Quando um antropólogo perguntou aos Mianmin sobre por que eles comiam os Atbalmins mortos que viviam perto dali, eles disseram que os consideravam "uma carne boa". Para os Mianmins, os Atbalmins - que faziam parte de outro grupo e cultura em comum - eram o "jogo" deles [fonte: Gardner].

O exocanibalismo também pode manter qualidades místicas e religiosas similares às do endocanibalismo. Entre os astecas, a prática de sacrificar soldados capturados e comer sua carne era um processo de comunhão com os deuses. Isso realmente provou ser benéfico para quem consumia e era consumido. Segundo a cosmologia asteca, a coragem na batalha e a submissão a um ritual de sacrifício e o consumo eram duas maneiras de garantir a entrada para a vida eterna [fonte: Ortiz de Montellano (em inglês)].

O exocanibalismo parece ter resistido mais do que o endocanibalismo, que foi erradicado por missionários e governantes na metade do século 20. Durante a 2a Guerra Mundial (em inglês), os militares chineses publicamente comiam a carne dos inimigos executados [fonte: Chong]. Em outro caso, um padre americano disse ter testemunhado um nacionalista chinês cortar e consumir o coração de um comunista (em inglês) capturado, no contexto dessa guerra [fonte: Chong]. Ambas as culturas do Iroquois e da ilha de Fiji ritualizavam atos similares de raiva canibalesca (chamada de raiva de batalha, quando encontradas em um contexto de guerra). Em ambas as culturas, os guerreiros capturados estavam sujeitos à tortura e mutilação diante de uma multidão, antes de serem mortos e terem as partes do corpo consumidas [fonte: Sanday (em inglês)]. Em 2003, rebeldes do Congo foram acusados pelas Nações Unidas de terem comido pigmeus assassinados [fonte: Los Angeles Times (em inglês)]. Os rebeldes também foram acusados de uma forma mais obscura de canibalismo: o autocanibalismo forçado.

Essa rara categoria de canibalismo vê a colisão entre o endocanibalismo e o exocanibalismo. É o consumo de sua própria carne. Isso pode ser inofensivo como roer unhas, geralmente, parte do processo de tortura. O caso mais famoso de autocanibalismo surgiu em 1934, quando um grupo de cerca de 2 mil sulistas brancos enviou convites e anunciou nos jornais locais de Jackson County, Flórida, que pretendiam sacrificar um homem negro. Membros do grupo capturaram Claude Neal e o sacrificaram. O pênis e os testículos foram cortados e ele foi obrigado a comê-los. Outras partes de seu corpo foram mutiladas (e algumas guardadas como lembrança) antes de ter a pele retirada e ser queimado [fonte: Patterson (em inglês)].

Muito do canibalismo aprendido praticado no mundo compartilha do objetivo comum de transferir alguma propriedade vital ou esotérica do consumido para quem o consome. Em algumas tribos, o exocanibalismo era praticado a fim de conseguir ingredientes para poções usadas para obter coragem ou vitalidade. Uma tribo sul-africana fez um preparado, chamado Ditlo, da carne de um inimigo capturado. Ao norte, em Serra Leoa, os povos Leopardos apresentavam rituais elaborados em que o sangue e a gordura humana de membros de outros grupos eram misturados em uma poção chamada Borfina, usada para atrair riqueza e poder [fonte: Lukaschek (em inglês)].

Mas de onde exatamente surgiram esses conceitos? Como precisamente uma cultura decide que vitalidade ou coragem são obtidas com a ingestão da carne de outra pessoa? O que criou a ideia de que a batalha deve resultar no canibalismo do inimigo derrotado? No final das contas, só existem duas explicações e elas estão emparelhadas.