A categoria de antropofagia chamada de aprendida ou canibalismo costumeiro é virtualmente o oposto do canibalismo para sobrevivência. É o consumo de carne humana, mais frequentemente de modo ritualizado sob algum método sancionado e até mesmo prescrito. O canibalismo aprendido é um comportamento passado de geração para geração (assim sendo um comportamento aprendido). Ele ainda pode ser subdividido em duas categorias principais: o endocanibalismo e o exocanibalismo. (O que Armin Meiwes e outros iguais a ele praticavam é referido como antropofagia patológica, o consumo de carne humana como fruto de insanidade. Isso é geralmente considerado fora do alcance da antropologia.)
![]() © istockphoto.com / Roman Shiyanov Imagina-se que algumas tribos do Brasil e da Venezuela tenham praticado o endocanibalismo, misturando as cinzas dos parentes mortos com uma sopa de plátano e os consumindo |
Os Fores da Papua Nova Guiné tinham um tipo bastante codificado de endocanibalismo como parte dos ritos funerais. Nessa tribo, mulheres e crianças representavam o maior papel no canibalismo entre os homens Fores falecidos. A sociedade autorizava certas relações para consumir certas partes dos mortos. Uma mulher, por exemplo, comia o cérebro do irmão morto. Uma cunhada comia as mãos do irmão falecido do marido ou as nádegas, a vulva e os intestinos da cunhada falecida [fonte: Lukaschek (em inglês)].
O endocanibalismo também pode ocorrer em sociedades onde a antropofagia não é praticada. Um chefe da tribo Junkun, no oeste africano, come partes dos corações dos antecessores. Ao fazer isso, na verdade, ele mantém o seu lugar fora da sociedade normalizada sobre a qual ele governa - os Junkuns não são antropofágicos e tal prática é um tabu. Os chefes Rukuba, da Nigéria, adquirem poder com o consumo da carne de uma criança da tribo. Os Rukubas também não praticam a antropofagia [fonte: Coquet, et al (em inglês)].
Uma tribo amazônica, os Wari, praticava o canibalismo como meio de transformar seus ancestrais de humanos para espíritos durante ritos funerais. O espírito podia adquirir uma forma animal e fornecer alimento aos descendentes que o caçassem. A antropóloga, Beth Conklin, que conviveu com os Wari, achava que existia outra base para o endocanibalismo do grupo. Era um meio de resolver uma mágoa. Os Wari transformavam o ambiente para se livrarem de memórias dos falecidos e "comer a morte" deles era uma maneira de estender esse processo [fonte: Salisbury (em inglês)].
Porém, a antropofagia nem sempre é um ato de carinho. Os Wari também consumiam a carne de seus inimigos e parentes [fontes: Salisbury]. Outro tipo aprendido, o exocanibalismo, é quase sempre baseado em ódio, raiva, desdém e humilhação.