Canibalismo para sobrevivência

Os antropólogos dividem a antropofagia em duas categorias amplas, baseadas em seu contexto. Uma delas é o canibalismo aprendido, também chamado de antropofagia costumeira. A outra classificação, canibalismo para sobrevivência, é talvez a mais perturbadora. Ele não é aprendido, ele parece ser inato. É também um dos mais facilmente perdoáveis na mente ocidental. E já ocorreu mais comumente do que a sociedade civilizada se sentiria confortável em admitir.

A Donner Party (em inglês) é um exemplo interessante. Em 1846, um grupo de expansionistas do oeste foi para a Califórnia, partindo do território de Iowa. Um grupo com 89 colonizadores se separou dos demais, tomando um atalho pelas montanhas de Sierra Nevada (em inglês). Isolados por causa de um inverno rigoroso e passando fome, o grupo se dividiu mais uma vez. Com o tempo piorando ainda mais, consumiram toda a comida, os animais e, assim, acabaram tendo de recorrer ao canibalismo para sobreviver.

Quarenta anos depois, quatro homens a bordo de um iate - chamado Mignonette - navegando da Inglaterra para a Austrália, ficaram isolados em um bote salva-vidas após naufragarem no Atlântico. Eles permaneceram à deriva por mais de dois meses e acabaram com a carne de uma tartaruga marinha capturada por eles. Um deles, o marinheiro Richard Parker, consumiu água do mar por causa da sede desesperadora. Com a sua saúde debilitada, seus colegas decidiram matá-lo e comer sua carne, ao invés de esperarem que o jovem morresse naturalmente. Numa incrível coincidência, um marinheiro chamado Richard Parker foi comido por seus colegas náufragos depois de terem consumido uma tartaruga num conto de Edgar Allen Poe, de 1838, intitulado: "A Narrativa de Arthur Gordon Pym (The Narrative of Arthur Gordon Pym)" [fonte: The New York Times].

Em 1972, um grupo de 16 pessoas, incluindo membros de um time de rugby uruguaio, enfrentou uma situação parecida. Eles ficaram isolados nas Montanhas dos Andes (em inglês), no Chile, depois de um desastre de avião. Durante os 70 dias, os membros sobreviventes do time consumiram a carne de outros que morreram no acidente [fonte: Simpson (em inglês)].

O canibalismo para sobrevivência ocorria tanto que, no século 19, era um fato da vida do qual não se falava no caso de um naufrágio. Isso, o costume do mar, incluía instruções gerais. Tirar a sorte com palitinhos era o método tradicional para decidir quem seria morto e comido e quem iria matar. Geralmente, a pessoa com o palitinho menor seria morta e a pessoa com o segundo palito menor era quem mataria [fonte: Salon (em inglês)].

Comer carne humana para sobreviver é o último recurso. No caso de um grupo à deriva num bote salva-vidas, 116 dias se passaram sem comida antes de decidirem se comiam ou não. Na maioria dos casos, qualquer coisa que se parecesse remotamente com alimento era consumida primeiro. Cães, velas, couro, sapatos e cobertores são todos consumidos primeiro, antes de o canibalismo vir a ser o único recurso de sobrevivência.

Sob essas terríveis circunstâncias, a antropofagia parece ser um passo lógico. Ela está nos desenhos do Looney Tunes quando os personagens se encontram em alguma outra situação de risco de morte. De repente, Pernalonga ou Eufrasino imaginam um colega como um lindo steak perfeitamente preparado. Por mais terrível que esse pensamento seja, ele faz sentido. Mas, a disposição da sociedade ocidental de perdoar o consumo de carne humana por seus membros na pior das circunstâncias está em profundo contraste com o modo como os ocidentais conhecem o canibalismo.